Percival de Souza Quem guardará o guarda? Antonio Callado escreveu, em Quarup, que preservar um filete de água pura num cano de esgoto é difícil. No Rio de Janeiro, onde a Petrobrás tingiu de petróleo a Baía da Guanabara e os esgotos mataram toneladas de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas, começou uma operação limpeza ambiental para minorar os terríveis danos causados a dois cartões-postais de cidade maravilhosa. Agora, o mesmo Rio vive um momento em que é preciso fazer uma saneamento na sua Polícia Civil, frontalmente acusada pelo subsecretário de Segurança, Luiz Eduardo Soares, de possuir uma banda podre na própria cúpula. Soares, além de achar isso, levou denúncias ao Ministério Público nesse sentido, ignorando por completo a existência do governador Anthony Garotinho e o titular da pasta, Josias Quintal. Soares foi demitido anteontem. O clima ficou insustentável. Em matéria de segurança pública, é preciso saber manejar para detectar os roncos do vulcão antes de começar a erupção. Não se combate criminalidade combatendo a Polícia, enquanto instituição. Se ela tem o lado mau este tem de ser extirpado. Mas participar de uma cúpula policial e fazer de conta que não tem compromisso algum com a instituição é de uma infantilidade absurda. Soares, sociólogo, confrontou-se com o secretário Quintal, que fez carreira na Polícia Militar. Algo tipo Malan trombando com Serra e FHC tendo que interferir e recomendar-lhes o silêncio obsequioso. O fato é que, consequência das escaramuças internas da semana, o corregedor da Polícia Civil do Rio, Waldir Arruda, perdeu o cargo. Em lamentáveis circunstâncias, porque segundo o sociólogo Soares, não se poderia entregar a ele a apuração de fatos internos graves porque, mutatis mutandis, seria como chamar a raposa para tomar conta do galinheiro. O chefe da Polícia Civil, agora, ameaça processar Soares por danos morais. É o impasse: se ficar quieto, estará concordando; se reagir, batendo às portas da Justiça, Soares terá que provar o que disse – o que não será tão fácil, à semelhança dos efeitos de Nicéa Furacão, a ex-Pitta, agora, Camargo, que assoprou um trombone em São Paulo, de maneira sonora mas desafinada. Curioso Garotinho manter por longo tempo a dupla Quintal-Soares no comando da Segurança do Rio. Os dois responsáveis por essa questão, hoje prioritária em todo o território nacional, apenas divergem sobre as formas de como a Polícia deve proceder. Foi assim no ridículo caça-topless nas praias, no caso do documentarista João Moreira Salles e o traficante Marcinho VIP, entre outros casos. Ora, convenhamos que não é possível traçar nenhuma política eficiente de segurança com esse antagonismo explícito. Soares procura mostrar que é um arcanjo enquanto Quintal clonaria Lúcifer. Mas não era possível tal ligação, a menos que estivessem camuflando posturas ideológicas tão necrófilas que ainda não perceberam que quem sai perdendo com essa queda de braço é a sociedade, que a todos e tudo paga, e continua vendo péssimos resultados. Mais inteligente, o procurador-geral da Justiça carioca, José Piñero, designou dois promotores para apurar as histórias da banda podre, mas junto com eles estarão dois delegados e dois oficiais da Polícia Militar. Aliás, mais um erro, porque jamais se verá delegado apurando irregularidades dentro da PM. Mas como Garotinho, o ex-radialista de Campos, joga para a platéia e tem pretensões de chegar ao Planalto, procura dar ao assunto um tratamento político, embora a segurança pública seja assunto rigorosamente técnico. Quando sociólogo quer mandar na Polícia (ou no País...) dá no que dá. Nada profissionalmente contra ninguém. Cada macaco em seu galho. Macaco em todos os galhos é que não funciona. O que se viu no Rio, e já se assistiu recentemente, entre outros Estados, aqui no Paraná, no Espírito Santo, no Mato Grosso e em Alagoas, remete-nos a uma lição que muitos governantes insistem em não querer aprender: talvez mandar na Polícia seja algo fascinante – mas saber mandar, saber planejar, saber comandar a máquina policial é outra história. Se o corregedor da Polícia é demitido, e se um pesado manto de suspeição envolve a instituição policial, temos que perguntar, como se fazia no passado: quis custodiet ipses custodes? Ou: quem guardará os próprios guardas?

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