Percival de Souza O Paraguai é aqui A favela Heliópolis, maior da América Latina, foi ocupada em São Paulo na última quinta-feira por um grupo misto das polícias Civil e Militar, numa resposta tardia aos traficantes de drogas que ao longo das últimas semanas vinham dando ordens de desocupação para aterrorizados moradores. O ultimatum, numa área marcada por disputas de pontos de venda e chacinas, atingia principalmente a favela Paraguai, distante dois quilômetros da Heliópolis. É isto: Paraguai fica aqui mesmo. Quando William Bratton, o pai do programa Tolerância Zero, em Nova York, esteve em São Paulo, acompanhei-o até a Heliópolis. Perguntei o que ele tinha achado. Bratton respondeu: ‘‘Parece a África do Sul...’’ Agora, o secretário Nacional Antidrogas, Walter Maierovich, nos convida para uma solenidade em Brasília, amanhã, quando serão escolhidos os vencedores de um concurso, feito em todo o país, de cartazes confeccionados com o objetivo de ajudar na prevenção. O episódio da favela Paraguai mostra, de novo, a força dos traficantes, impondo regras e normas. Continuamos verificando que no epicentro dos personagens do tráfico e suas inevitáveis consequências para a criminalidade e a violência a droga continua aparecendo com destaque. Investe-se ainda timidamente na prevenção, a repressão é deficiente, o comprometimento continua avassalador. Anos atrás, quando se falava em expoentes da bandidagem barra-pesada inevitavelmente se mencionava as monolíticas estruturas criminosas fincadas em cidades como Pedro Juan Cabalheiro e Capitán Bado. Era assim com relação a carros roubados, tráfico de entorpecentes, contrabando, descaminho e pistoleiros de aluguel. Cada vez mais, esse lado carcomido da sociedade fica no Brasil mesmo, cada vez mais perto de nós, e os criminosos paraguaios vão se tornando aprendizes. O governador Mário Covas voltou a prometer reações contra o Paraná, agora em relação ao porto de Paranaguá, que estaria oferecendo incentivos fiscais prejudiciais ao porto de Santos, litoral de São Paulo. No mesmo dia em que ele disse isso, a Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembléia Legislativa estadual foi ao porto de Santos, onde constatou que os traficantes estão usando contêineres em larga escala. A privatização do porto, segundo a CPI, diminuiu a fiscalização. As drogas também são a razão principal do escândalo que envolveu a Polícia Civil paranaense, envolvendo de alto a baixo a graduação hierárquica policial, com um singular detalhe: o serviço reservado da Polícia Militar elaborou dossiê confidencial para apurar os envolvimentos de civis com traficantes. Como as duas polícias são do mesmo Estado, evidentemente faltou uma sincronia profilática de apurar os fatos e tomar as previdências cabíveis. Não é possível que uma polícia diga que a outra está contaminada e tudo fique por isso mesmo. Como já escrevi aqui, a rigor não precisaria a CPI do Narcotráfico acender o estopim que conduziria ao barril de pólvora. Mas, como alguém falhou, ou se omitiu, as coisas acabaram chegando a este ponto. Em matéria de envolvimento com o tráfico e corrupção, não se pode transferir para um remoto amanhã as necessidades prementes de hoje. Dizer que o Paraguai é aqui não quer dizer nada contra os paraguaios. Quer dizer que é cruel ouvir de quem mora na favela com esse nome que se prefere a fome de que a morte; ver o aviso em letras mal escritas à porta da casa miserável: ‘‘Favor não invadir esse barraco’’; perceber como é cínica a discussão sobre o documentarista João Moreira Salles financiar um curta metragem com pagamentos irregulares para o traficante Marcinho VIP e a Polícia carioca divulgar o conteúdo de uma fita onde o traficante manda arrancar pedaços do corpo de um desafeto. Droga, droga, droga, sempre a droga, no começo, no meio e no fim de vários caminhos. Questão cada vez mais próximo da rua onde se mora, do bairro residencial, da cidade onde se habita. Na semana que se aproxima, mecanismos legais serão acionados, em Curitiba, para alterar situações de acusados que tiveram custódia decretada. O assunto, porém, vai muito além. Envolve moral, costumes, ética, respeito, interesse social, solidariedade. Só assim para diminuir a força da droga, até aqui vencedora.