Percival de Souza
Faces ocultas
É triste, para não dizer deplorável, testemunhas terem que se apresentar encapuzadas para prestar depoimento sobre atividades de chefões do crime, sob o risco evidente de eliminação física caso sejam identificadas. A CPI do Narcotráfico, que recebeu em Brasília, na última quinta-feira, testemunhas nessas lamentáveis condições para falar sobre o tráfico e crime organizado no Estado do Paraná, proporcionou esse espetáculo para a televisão e fotos surrealistas para os jornais e revistas, mas enfiou os pés dentro de um terreno movediço. Pelo que se divulgou na CPI, tais cautelas se deveram ao fato de no Paraná existir um sério comprometimento de empresários e autoridades em todos os níveis do executivo, atingindo o Legislativo e salpicando o Judiciário. Ou seja: haveria uma estrutura criminosa, toda revestida de caráter legal, com expoentes acima de qualquer suspeita. Explicitamente, um delegado paranaense, Adauto de Oliveira, e um deputado estadual, Ângelo Vanhoni (PT), ligaram um ventilador acusatório em altíssima rotação, até porque segundo o parlamentar a lavagem de dinheiro teria proporcionada, ao longo de 27 meses, um escoamento de US$ 8,9 bilhões, dos quais US$ 7 bilhões especificamente de Foz do Iguaçu. No começo do mês que vem, a CPI estará no Paraná para algumas investigações, à semelhança do que já se fez em outros Estados, pois as fontes ouvidas citaram comprometimentos graves, inclusive de policiais civis e militares, embora nessa história toda, segundo dizem, haveria peixes muito mais graúdos nadando nas águas turvas da corrupção, do tráfico e da engrenagem criminosa.
Bonés, capuzes e cobertores envolviam e protegiam os corpos das testemunhas. A rigor, isso é muito interessante, comovente até, como imagem, mas não como resultados práticos. Em nosso sistema processual, as testemunhas têm que ser identificadas, ouvidas, compromissadas e fornecer endereços. Tudo o que a CPI faz ou pode fazer acaba sendo remetido ao Ministério Público, dono constitucional da ação penal, e os procedimentos, a partir daí, correm no Poder Judiciário.
Por tanto os capuzes não são eternos. O segredo das testemunhas é dos mais relativos. Se a máquina do crime é tão poderosa e tão envolvente, evidentemente terá condições de saber quem é quem. Na última semana, na cidade de São José dos Campos, Vale do Paraíba paulista, um jovem de 17 anos por sinal, bisneto do presidente Campos Salles foi espancado violentamente por outros adolescentes quando saía do colégio onde estudava. Detalhe: o jovem, Bruno Salles Moraes, havia denunciado traficantes que agiam na escola para a diretoria. Ameaçado, passou um ano fora do País, estudando nos Estados Unidos. Assim que voltou, aconteceu isso.
O caso é exemplar, mostra a realidade que autoridades insistem em não querer ver. Diferente do que está se vendo em Brasília e cidades satélites, onde a Polícia Militar está submetendo os alunos de todas as escolas públicas a uma revista com detector de metais, única maneira de se evitar que alguém entre armado na sala de aula, como estava sendo rotina no planalto.
Voltemos aos capuzes que deixam o Estado do Paraná numa situação embaraçosa: as autoridades de nosso Estado, em todos os níveis, têm condições de levar a fundo uma investigação sobre o que se disse em Brasília. Não posso acreditar que um grupo de parlamentares saia do distrito Federal e desembarque no Paraná, como se fossem iluminados ingleses viajando para a Índia, e descubram algo que estaria escondido debaixo do tapete. A essa altura, políticos, empresários e magistrados têm o dever moral de proporcionar toda segurança para que as testemunhas tirem os capuzes, contem e detalhem o que realmente sabem, para que se faça, se for o caso, a devida profilaxia e, se necessário, as amputações que a situação exige.
Se as testemunhas estão sem rosto, é porque suas faces ocultas estão intimidadas, amedrontadas, atemorizadas. Admitir uma situação dessas, em qualquer Estado da Federação, seria vergonhoso. Não acredito que o Paraná precise passar por isso. É um Estado forte, pujante, e pode dar uma resposta para o desafio.





