Percival de Souza
Brinquedo assassino
Chucky, boneco personagem central de um filme de mau gosto chamado Brinquedo Assassino e que mesmo assim, à semelhança de outros, ganhou uma segunda parte, foi destaque na semana porque um menino de nove anos disse ter se inspirado nele para golpear com quarenta golpes de faca sua vizinha, uma menina de sete. FHC mandou dizer, por meio de seu porta-voz, que o episódio demonstra que há necessidade de um autocontrole rigoroso dos meios de comunicação. O secretário de Direitos Humanos, José Gregori, emendou: No Brasil, às vezes, precisa haver sangue para comover as pessoas. O SBT, que exibiu o filme, divulgou nota de esclarecimento público informando que Chucky foi analisado pelo Departamento de Classificação Indicativa do Ministério de Justiça, classificado como recomendado para maiores de 14 anos, portanto a transmissão autorizada para o horário após 22 horas e que, no caso específico, a exibição teve início às 22h17 do dia 4 de fevereiro.
O caso aconteceu numa cidade-satélite do Distrito Federal. Quer dizer: periferia. O menino perguntou se a menina queria morrer. Ela respondeu que não. Felizmente, as perfurações foram subcutâneas e não provocaram risco de vida. Muitos filmes estão destruindo a vida dos nossos filhos, queixou-se o pai da menina. Vamos aos fatos: 1) o SBT exibiu esse filme duas vezes. Quem entende de cinema diz que o filme é tão repleto de clichês e os atores são tão fracos que até mesmo para uma criança seria difícil distorcer o real: 2) especialistas em psicologia infantil são unânimes em cobrar mais responsabilidade da TV, de um lado, e de outro entendem que um filme desses poderia, no máximo, funcionar como lenha numa fogueira já acesa. A psicanalista Lulli Milman, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, fez uma colocação interessante: Esse menino demonstrou não ter em sua vida um adulto que o faça se identificar com os seres humanos porque se ele se identifica com um boneco, deve estar sendo tratado também como um boneco e não como um ser humano, e por isso quer matar o que há de mais humano em sua vida, no caso a garotinha com quem ele brinca.
Perturbador diagnóstico. Mas houve psicanalista que considerou a violência do boneco Chucky extremamente gratuita e, na opinião de um deles, José Renato Avzaradel, o lazer de hoje ensina que tudo se resolve matando os outros, na base da violência.
Alguém disse, quando se discutiu o tema violência na Câmara dos Deputados, em Brasília, que a TV está impregnada por um papel nefasto, socialmente predador. José Gregori, que sonhava ser ministro da Justiça e agora imagina ser ungido para a embaixada brasileira no Vaticano, vem falando há tempos num Código de Ética que as emissoras continuam insistindo em ignorar.
O Ibope forneceu um termômetro de análise ao apontar quais são os programas de TV favoritos para crianças entre 2 e 14 anos. Pela ordem, de 1 a 10, aparecem a novela Terra Nostra; outra novela (mexicana), A Usurpadora; o humorístico Casseta & Planeta; o policial Linha Direta; Jornal Nacional; Tela Quente; Vila Madalena; Chiquititas; Globo Repórter; e Fantástico. Este é o cardápio favorito na babá eletrônica, e sobre ele, realisticamente, a sociedade brasileira deve meditar.
Segundo Shakespeare, quase ensinamos instruções sangrentas que, sendo ensinadas, voltam para atormentar o inventor. Em termos rígidos, até os Três Patetas podem representar jardim da infância da violência, com direito a cursos complementares. O problema é que não existe espaço ético para contraponto, ou seja, a violência sempre aparece como método para alcançar objetivos, os conflitos nunca são resolvidos sem disputa física mas nunca se transmite que a violência é abjeta, repreensível, anti-social. O que se faz, com a absoluta falta de ética é desprezar a vida humana.
Chucky, sozinho, não impulsionou o menino do Planalto a matar. Mas se ele fica em frente à TV para passar tempo, horas e horas (prática adotada por muitos pais), e não existem freios morais contensores, pode ter acontecido a gota no copo dágua. Chucky está rindo sinistramente para todos nós. Mas não precisamos matá-lo. Basta desligá-lo.





