Bombeiros no fogo
Durma-se com barulho desses: um deputado estadual da bancada governista em São Paulo resolve apresentar uma proposta de emenda constitucional, desvinculando o Corpo de Bombeiros da estrutura da Polícia Militar. A proposta foi endossada pelo comandante dos Bombeiros, coronel Luiz Roberto Carchedi. O governo – que é do PSDB – reagiu e tirou Carchedi do Comando e, junto com ele, mais dois coronéis (o subcomandante e o comandante da capital), despachando-os para unidades de policiamento bem longe da capital.
Carchedi, em seguida, deu entrevista dizendo que a população sairá perdendo, porque ele – há 24 anos direto nos bombeiros – não entende nada de policiamento. O secretário de Segurança, Marco Antonio Petreluzzi, argumenta que Carcheri aprendeu a atirar e acionar o gatilho seria como andar de bicicleta: ‘‘quem aprende, jamais esquece’’.
Ora, ora. Lendo esse resume dos fatos, o leitor poderia imaginar que está diante de um conto de ficção científica. Mas, lamentavelmente, o que você acaba de ler é rigorosamente verdadeiro, isto é, a política do homem certo no lugar certo substituída pela politicagem do homem errado para o lugar errado. A contradição não pára aí: o governo Covas apresentou uma proposta de emenda constitucional para que a Polícia Militar seja extinta.
Agora, resolve defendê-la com unhas e dentes, contra justamente um organização super-respeitada pela população, o Corpo de Bombeiros. Contradição talvez seja pouco para definir essa péssima opereta-bufa. É uma mistura de incompetência com incoerência, falta de rumo técnico-profissional com trabalho sério. A população, cobaia de sempre na fogueira de vaidades, arde nessa guerra institucional, de péssima repercussão em todos os sentidos.
Há mais, porém. O governo Covas se diz democrático. E a questão dos bombeiros deve ser debatida tecnicamente, única e exclusivamente. O que é preciso deixar bem claro para a população é qual e melhor fórmula e por que motivos. Nada mais. E se a proposta parte de um deputado do partido do Governo, por que a retaliação antidemocrática contra os oficiais dos bombeiros? A assunto não é dogma. Os melhores bombeiros do mundo – e só ver, por exemplo, Estados Unidos, Inglaterra, França e Japão – são desvinculados da Polícia. É verdade, admita-se, que os separatistas paulistas querem continuar com os postos hierárquicos, salários, instalações e equipamentos. Admita-se, também, que existem os Corpos de Bombeiros Militares (vide nossa Constituição) e vários exemplos de uma estrutura nesses moldes, como a do Rio de Janeiro – o primeiro – e o Distrito Federal.
Como o assunto não é dogma, ainda ao longo desta semana o secretário da Segurança gaúcho, José Bisol, falou em unificar as Polícias Civil e Militar (no Rio Grande do Sul, a corporação é chamada de Brigada), mencionando uma experiência semelhante já em desenvolvimento no Estado do Pará (a qual tive a oportunidade de conhecer in loco). Mas aqui, em termos constitucionais, demagogias à parte: cada polícia tem a sua competência (Constituição, artigo 144) e o que se pode fazer em cada Estado, isto sim, é integrá-las em termos operacionais. Os verbos são diferentes: integrar nunca quis dizer unificar, embora a unificação também não seja dogma. O assunto, entretanto, tem o Congresso como único palco de discussão.
Por falar em dogma, o Ministério da Justiça liberou o filme com esse nome (‘‘Dogma’’), onde a figura de Deus é apresentada como sendo feminina. O filme, americano, do cineasta Kevin Smith, avança em cenas e referências bíblicas contra as quais a Igreja Católica reagiu. O filme é só mais um prego fincado na cruz de Cristo, argumenta o filósofo Olavo de Carvalho. Faço referência porque dogma que dizer ponto fundamental indiscutível duma doutrina religiosa, e por extensão de outras doutrinas e sistemas. Acontece que muitos conceitos foram totalmente corroídos pelos ácidos da modernidade. O caso dos bombeiros versus PM de São Paulo é emblemático nesse sentido. Mais uma vez, é preciso definir o que é mais eficiente para a população e não na cabeça dos eventuais e efêmeros detentores do poder. Claro, isso se faz com democracia. Não com democradura.