Percival de Souza
Narcotráfico e CPI
Pulvis es et in pulverem reverteris, és pó e ao pó voltarás. As palavras de Deus, segundo o Gênesis, dirigidas a Adão logo após o pecado original, parecem adquirir significado contemporâneo nos caminhos e vicinais da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico.
Em verdade, o fogo cruzado sobre pessoas e cidades, chefões e rotas, possui revelações um tanto camufladas. Para não confundir impacto da onda com farfalhar sempre frívolo da espuma, vamos por os pingos nos is o que tento fazer depois de percorrer os corredores da Câmara Federal, em Brasília; escalões graduados do Departamento de Polícia Federal e conhecer, ponto por ponto, a estrutura da Secretaria Nacional AntiDrogas, ligada diretamente à Presidência da República.
O clamor popular contra a impunidade aguça os parlamentares da CPI, que por vezes batem no ponto certo, em outros momentos fazem pirotécnicos jogos de cena, não desperdiçando a chance dos holofotes da mídia de cada dia mas, enfim, bem ou mal as chagas criminógenas ficam expostas, embora haja distância de anos-luz entre falar e provar.
Acompanhe o raciocínio: quando, de repente, se escancaram rotas, estruturas e nomes, haveremos de admitir que, em sendo procedentes as acusações, estaríamos assistindo a uma letargia fantástica de organismos policiais, do Ministério Público e do Poder Judiciário. Sim, porque se tal estrutura existir de maneira sólida, formato incrustado nos órgãos públicos e até Poderes, chega a ser estarrecedor que uma CPI obtenha informações rapidamente sobre esse esquema mafioso. Isso mostra a fragilidade dos chamados órgãos de persecução penal. Isto é: aquela prática meramente cartorária, formalmente burocrática, não consegue mais atingir o âmago da questão.
Walter Maierovitch, o secretário Nacional AntiDrogas, admite que esses órgãos acabem se comportando de uma forma que ele chama de lesma reumática ou seja, impossível andar mais devagar do que está andando. Aliás, o secretário acrescenta que nosso País, há anos vem sendo considerado esconderijo da predileção de potentes mafiosos e fraudadores internacionais, que encontram facilidade na obtenção da chamada lavagem de cidadania, ou seja, obtenção da cidadania brasileira para o fim de apagar os antecedentes sociais derivados daquela origem.
Área restrita, diz o aviso à porta de um setor da Secretaria Nacional AntiDrogas. Lá dentro, um mapeamento atualizado das rotas do tráfico no Brasil, com base nos mais variados tipos de informes e informações, oriundos das Polícias e das Forças Armadas.
A rigor, temos um diagnóstico razoável, ou seja, pronto, através do qual se pode fazer uma idéia embora ainda haja carência de provas sobre os tentáculos do tráfico em nosso País de dimensões continentais. A rigor, a CPI escancara uma face não tão oculta, se levarmos em consideração como a menção de certos nomes e situações não provoca grandes surpresas nos círculos locais dos personagens. Essa situação sugere uma espécie de brincadeira de mau gosto entre mocinhos e bandidos, com a diferença que os bandidos são ousados e os mocinhos covardes. Como disse certa vez o papa Pio XII, o que dá a oportunidade aos maus é a omissão dos bons. Não adianta ser bonzinho e ser mocinho mas ficar quieto num canto, pois é exatamente essa postura de avestruz que permite ao outro lado avançar e conquistar espaços.
A droga possui hoje uma aceitação muito grande na sociedade. Para ela, funciona como nunca a lei da oferta e da procura. O usuário é um doente, precisa de ajuda e tratamento, mas é a sua dependência que alimenta a poderosa estrutura. Muita gente diz que é a favor da liberação das drogas, mas quando a bomba estoura na sua casa (a descoberta do filho ou parente como usuário) deixa a tese de lado e corre, muitas vezes em desespero, atrás de algum tipo de ajuda.
No tráfico, você corta um tentáculo e aparece outro. Algo como cabeça de hidra. Portanto, não nos basta, como cidadãos, acompanhar de longe a performance limitada da CPI mas definir, como sociedade, exatamente o que queremos. A volta ao pó poder ser um sentido dúbio. Desgraças mil têm sua origem na droga. Precisamos examinar o assunto com mais seriedade, profundidade, competência e coerência.





