Percival de Souza
Violência na Corte
A questão da violência e a segurança pública foi discutida na última quinta-feira, a requerimento de todas as lideranças partidárias, pela Câmara dos Deputados. A convite do presidente da Casa, deputado federal Michel Temer, estive em Brasília para prestar um depoimento, juntamente com outras pessoas que passam a compor, em nome da sociedade civil, uma comissão especial para discutir e encaminhar o assunto com propostas, sugestões e, talvez, projetos de lei.
Quero repartir com você a sensação de passar dois dias no Planalto, nosso Distrito Federal, para ver como o eco das ruas onde o sobressalto tem sido permanente chega ao epicentro nacional do poder político. Na Corte, as idéias podem se confundir. Segundo o próprio Temer, é preciso dizer o óbvio, da mesma forma como já escrevi aqui e disse em Brasília, citando Camus precisamos dizer que dois mais dois são quatro, mesmo que para isso corramos riscos físicos. O presidente da Câmara destacou que nosso País se pauta pela improvisação, que costuma agir de acordo com as circunstâncias. Também disse, em bom tom, que precisamos olhar para os excluídos, e que além de falarmos sobre os direitos individuais precisamos falar de democracia do pão sobre a mesa, que falta em muitas casas, barracos, ruas, pontes e viadutos.
Carlos Veloso, o presidente do Supremo Tribunal Federal, frisou que vivemos aquilo que chamou de era dos direitos. E não hesitou em lancetar: a lentidão da Justiça colabora para o crescimento da violência. Bem a propósito, o secretário da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Raymundo Lucena, depois de informar que a palavra violência aparece 68 vezes nos relatos do Antigo Testamento, enfatizou os valores cristãos para asseverar que a violência torna impossível a vida sobre a terra.
Geraldo Brindeiro, procurador-geral da República, apontou o narcotráfico como um dos problemas principais causadores de violência. O ministro da Justiça, José Carlos Dias, comentou: se o povo está amendrotado, precisamos nos erguer. Incisivo, o representante de secção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil, Antonio Mariz de Oliveira, arrancou aplausos do plenário da Câmara ao denunciar um papel que taxou de corrosivo e predador à televisão.
Em síntese, foram esses os destaques do que se analisou e disse como pontapé de partida para um debate que deverá se prolongar, ainda mais que a CPI do Narcotráfico (formada, como você pode observar, pelo chamado baixo clero parlamentar) continua atirando em todas as direções e forçará, nesta próxima semana, uma definição do que vem a ser suspeito ou culpado, indícios e provas, impunes e inocentes.
Veja que existe na Corte do Planalto, finalmente, um clima político para equacionar as questões segurança e violência que atormentam os brasileiros. A Capital Federal, com sua população flutuante, esquenta às terças, quartas e quintas e esfria consideravelmente às segundas, sextas, sábados e domingos. A Câmara é suntuosa na arquitetura de Niemayer e Lúcio Costa, é deslumbrante, e Brasília passa um pouco essa sensação de que tudo vai bem no Brasil. A capital federal lembra mesmo uma ilha da fantasia.
Prestei atenção no rosto sofrido de um mulher. Representava uma associação de vítimas. E como se ela estampasse no semblante a dor que sente por dentro e ninguém consegue curar. Valéria Velasco perdeu o filho, jovem, assassinado por lutadores de karatê. Ela ouviu as teses, as retóricas, e perguntou: que sociedade queremos? As pessoas estão se acostumando à violência.
Dei o meu recado, na linha que o leitor está acostumado a acompanhar nesta coluna. Estive com gente da Polícia Federal, staff da Secretaria Nacional Antidrogas, almocei no Palácio do Planalto e fui para o aeroporto. Com a sensação de que as coisas se passam de uma maneira e o eco em Brasília é outro, apesar de tudo, uma demonstração de vontade para a retomada do caminho certo no encaminhamento das questões que preocupam a todos nós. As peças retóricas produzidas para começar foram maravilhosas. Espero, agora, um breve encontro marcado com a realidade.





