Percival de Souza
Mundo cão
O crime que abalou o presidente aconteceu há uma semana, que se completou ontem: a prefeita da cidade de Mundo Novo, MS, Dorcelina de Oliveira Folador (PT) estava na varanda de sua casa quando um pistoleiro usou um muro para apoiar-se e fazer mira, disparando sua arma por seis vezes e matando a mulher.
O crime abalou o presidente e ele comentou aquilo que todos nós, brasileiros, temos atravessado na garganta: O Brasil cansou dessa coisa de máfia, de crime organizado e que é preciso estampar toda essa podridão que está aí. Mundo Novo com coisas de mundo velho, prática de mundo-cão, onde a audácia quase sempre impune age de tocaia (o estilo do matador de Dorcelina lembra aquele que foi empregado para matar Chico Mendes, no Acre), suficientemente atrevida para eliminar a vítima dentro de sua própria casa.
Mundo Novo fica de um lado e Guaíra, paranaense, de outro. Cidades separadas por um belíssimo rio, até recentemente atravessado somente com balsas (cujo dono da concessão, por sinal, foi assassinado há dois anos) e agora dispõe de uma moderna ponte. Guaíra, por sua vez, faz fronteira com o Paraguai, pela cidade de Salto Del Guayrá. Já fiz constatações incríveis nesses lugares: é possível comprar um arsenal que faz lembrar a ficção do filme Blade Runner (O Caçador de Andróides, estrelado por Harrison Ford). Porque você pode adquirir um Colt Ar-15, pistolas semiautomáticas, carabinas e revólveres, alternando os calibres de 9 a 40 e 45 milímetros, incluindo o Magnum 357 e a escopeta norte-americana Maverick, fabricada no Texas, com capacidade para dez cartuchos. In loco, verifiquei que tais armas podem ser compradas e ser entregues, sem problemas, do lado brasileiro quer Mundo Novo, quer Guaíra. Do lado paraguaio, os bancos de cimento que ornamentam a avenida principal são patrocinados justamente pelos vendedores de armas, todos com inscrição ostensiva.
Portanto, independentemente do cado da prefeita assassinada, estamos falando de uma terra de ninguém. Literalmente: pelo lado de Guaíra, PR, existem estradinhas bem conservadas para acesso a portos clandestinos, por onde passam, além de veículos, armas e munições, que têm como destino contrabandistas, traficantes e assaltantes. A omissão das nossas autoridades na região é impressionante.
Pelo lado de Mundo Novo, MS, existe uma estrada de terra paralela, conhecida como linha, justamente porque percorre toda a linha de fronteira e permite chegar a outras cidades, como Capitán Bado e Pedro Juan Caballero. Antes de Mundo Novo, o Ministério da Fazenda chegou a montar um sofisticado posto aduaneiro, hoje abandonado. E numa fazenda perto dali, cansado de ser assaltado, o proprietário construiu uma imensa torre de observação com vigilância armada. Parece outro Brasil. Mas é nosso País.
Durante muito anos, Salto Del Guayrá foi cidade-base do receptador de carros roubados conhecido por Dezinho. O receptador foi assassinado anos atrás nas proximidades de Cuiabá junto com mais dez pessoas de sua família (onze mortos no total), inclusive a mulher, ex-miss Paraguai. Os matadores pouparam somente um bebê, deixado choramingando debaixo de uma árvore.
Como diria Balzac, ao lado da necessidade de definir está o perigo de se embrulhar. Eis a questão: definir e resolver, embrulhar e empurrar. Um impasse, na verdade. O clima da região de fronteira possui estopim próprio, segredos guardados em cofres, corações e mentes, acordos espúrios, omissão criminosa, covardia operacional, tolerância total e comércio mais para ostensivo do que para clandestino. Nesse clima, nascem e proliferam caciques e intermediários, insensíveis e amorais, para os quais matar significa apenas tirar pedras incômodas do caminho, como se a vida humana fosse simplesmente o artigo mais barato do mercado.
Dorcelina, a ex-sem-terra, perdeu a vida fuzilada em sua própria casa. Isso aconteceu porque antes do crime muita gente perdeu a vergonha, aceitando o absurdo como normal, a burocracia como prática e a indiferença como sentimento. Na rotina dos incompetentes, foi apenas uma morte a mais.





