Dois e dois, quatro
Arrepiante a última rebelião da Febem de São Paulo: quatro mortes em estilo de crueldade, barbárie, ferocidade máxima em matéria de violência, deixando o rei nu – no caso, o governador Mário Covas. Para cobrir as partes pudendas, ele resolveu despachar boa parte dos próximos dias não no Palácio dos Bandeirantes, onde fica a sede do governo, mas dentro da Febem, o que significa uma demonstração de absoluta incompetência de todo o quadro funcional, com todas as graduações hierárquicas.
Além das destruições de praxe, acompanhadas de incêndio, os menores mataram-se entre si. Num dos casos, uma das quatro vítimas teve a cabeça decepada, que serviu de bola para alguns minutos de futebol. Depois, a caixa craniana foi arremessada para cima dos muros na direção dos policiais. Antes disso, o menor que ficaria sem cabeça foi queimado vivo. Não adianta querer entender os matadores. Só dizem coisas do tipo: ‘‘zerei’’, ‘‘já era’’, ‘‘xeque-mate, meu’’.
O escritor Albert Camus escreveu, certa vez, que a História chega a um ponto no qual quem tem o atrevimento de dizer que dois mais dois são quatro corre o risco de ser condenado à morte. Vamos nos arriscar, entretanto, a dizer que dois mais dois são quatro dentro dessa maldita, inútil, cara e cínica Febem.
Apanhemos os primeiros dois, a maldição e a inutilidade. Maldita porque vem de um estigma desde os antigos Serviços de Assistência ao Menor (SAM) e Recolhimento Provisórios de Menores (RPM), onde a truculência ditava regras e normas. Inútil, porque a tão desejada recuperação é mera utopia dentro da instituição total, onde fatores sociais e pedagogia (quando existe) fora de contexto se misturam de forma explosiva.
No caso da Febem, o tão falado Estatuto da Criança e do Adolescente não passa de palavrório, letra morta. Não funciona no trato com o menor, não funciona para as obrigações do Estado e mistura uma cumplicidade onde o faz-de-conta é a peça encenada diariamente. Na mistura, encontramos ‘‘técnicos’’ de todo tipo – togados, pós-graduados, mestres, peritos, categorias donas de um palavreado onde a retórica encobre a realidade.
Os outros dois, parafraseando Camus, repousam sobre o preço de tudo isso e o cinismo envolvente da instituição podre, falida. A Febem é cara porque a tabela de custos, conforme pesquisa já feita nos melhores (e mais caros) colégios particulares de São Paulo indica que a média mensal das mensalidades gira em torno de R$ 1.200. Na Febem, o custo médio de cada menor é 1.700. Entenda: os recursos, portanto, existem. Mas são desviados, desde o pagamento de ‘‘técnicos’’ sabe-se lá em que até o fato de que os menores não possuem sequer colchões para todos dormirem. Passam a maior parte do dia assistindo TV e jogando futebol.
Tenho a impressão de que alguma forma de peculato envolve essa discrepância. Por fim, o cinismo. Há anos, os ‘‘técnicos’’, incompetentes ou criminosamente omissos, misturam num saco só menores perigosos com menores cândidos. Imagine alguém que já matou (para roubar, principalmente) convivendo com o menino que praticou um furto. Existe ainda a categoria dos jovens-adultos, eufemismo semântico para quem completou 18 anos dentro da instituição. Um destes, aparentemente psicopata (ou quem corta a cabeça do outro a golpes de machado pode ser considerado normal?) trucidou o colega de infortúnios.
Os ‘‘técnicos’’ abandonaram seus discursos e sumiram. A PM teve que aparecer. O governo precisou ir lá ver o que fazer – sinal de falência total, porque a Febem é subordinada a uma Secretaria de Estado, tem uma presidência (o último já pediu o boné e se mandou, dizendo que não faz parte do seu gênero tentar ser o Mister M) e mantém um quadro com remuneração diferenciada para estabelecer normas em nome da psicologia, da sociologia e da pedagogia.
Com a devida licença de Camus, ouso acrescentar: Febem também é cabide de empregos que, na última administração, já teve quase cinco anos (!) para dizer a que veio. Não disse. O vulcão entrou em erupção mais uma vez, porque está fora de controle, como admite o governador Covas. Portanto, vamos correr juntos todos os riscos consequentes. Mas é preciso gritar:dois e dois são quatro!

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