Percival de Souza
Cobaias da Segurança
Tive contato com três secretários de Segurança ao longo da semana cada um filiado a um partido político diferente e quero repartir com você o que se pensa em termos de segurança pública nos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Dessa mistura, espero que os paranaenses consigam traçar o seu rumo próprio nesses tempos de confusão sobre a matéria.
Petreluzzi, o paulista, é do tucanato. Está vendo se consegue emplacar uma idéia pela qual os usuários de telefone seriam taxados R$ 2,50 ao mês. O dinheiro arrecadado seria utilizado para equipar melhor a Polícia. Os paulistas estão chiando barbaridade, desconfiados de que seria um novo CPMF camuflado, pelo qual se cobra das movimentações financeiras para melhorar a saúde pública nacional, coisa que por sinal não aconteceu. O desconfiômetro procede, porque temos mais exemplos: atrás dos volantes de apostas da Caixa Econômica Federal, você pode ler que da arrecadação da mega sena 3% teriam destinação para o Fundo Penitenciário Nacional. Esse dinheiro nunca foi repartido, embora remetido aos cofres do Tesouro Nacional.
Bisol, o secretário gaúcho, está descrente das prisões, do inquérito policial, e acha a dualidade das organizações policiais uma burrice. Vincula as questões sociais diretamente às consequências criminais. Ainda acumula a pasta da Justiça e tem como modelos as realidades européias (particularmente a Alemanha) e norte-americana. Falta-lhe, portanto, pés no chão.
Josias, o carioca, pareceu o mais prático de todos. Investiu na descentralização e instituiu uma premiação aos policiais que se destacam na solução de casos que causam maior abalo à sociedade, conciliando eficiência maior de estrutura com estímulo ao policial, valorizando a sua auto-estima (coisa na qual poucos pensam).
Petreluzzi, PSDB, sabe que a segurança pública é dever do Estado. Está escrito na Constituição. No caso de São Paulo, a Segurança Pública é a segunda mais aquinhoada na distribuição orçamentária, ficando em segundo lugar 10,1%. A sua frente, apenas a Educação. A Saúde fica mais embaixo. A idéia de cobrar taxa de quem possui telefone foi tirada de um modelo da cidade de Chicago, EUA, onde se estruturou um fundo especial. O sistema dos americanos é diferente e entre outras características quem manda na política de segurança pública é a Prefeitura, e não o governo do Estado como acontece entre nós.
Acontece, porém, que quem aciona a Polícia para uma emergência é atendido dentro de uma média de dez segundos! Aqui, desconfia-se para onde vai o dinheiro e, naturalmente, se pensa o que poderia ganhar-se em troca de mais uma contribuição.
Bisol, PT, está numa fase em que prioriza colocar uma espécie de cabresto na Polícia. Este é um caminho no fio da navalha, porque na Polícia, evidentemente, deve se corrigir toda e qualquer distorção. Mas também não se pode tratá-la como inimiga porque aí em termos de governo a vaca acaba indo para o brejo. Já se comportou assim em São Paulo, ao longo do primeiro mandato do governador Mário Covas. Deu no que deu.
Josias, PDT, parece estar tirando lições das dezenas de equívocos anteriores para traçar um novo rumo. Num Rio de criminalidade diferente, onde nos morros traficante é considerado herói e policial inimigo, é preciso levar em conta especificidades que não são comuns em outros centros urbanos.
Mas que lições tirar dessas posições Petreluzzi-Bisol-Josias? Primeiro, que a questão da segurança é suprapartidária, tem que ser vista acima das ideologias e não pode ter como alicerce nenhuma posição pré-determinada. Tem que se aprender, ver, ouvir, ter humildade de admitir que não se conhece todos os aspectos e não ter vergonha de perguntar sobre aquilo que se ignora.
O secretário paulista, cujo antecessor hostilizava a Polícia como faz atualmente o secretário gaúcho, percebeu que precisava investir mais e pesado na organização policial se não quiser ver São Paulo se transformar, com já está se transformando, num lugar onde os bandidos deitam e rolam com chacinas, tráfico, assassinatos estúpidos, latrocínios alarmantes e aquela sensação de medo que vai tomando cada vez mais espaço nos corações e mentes.
Perceba que os pensamentos são diferentes, as filosofias de trabalho também, e de uma forma ou de outra a população é tratada como cobaia de experiências. Cobaias compulsórias, porque quando se direciona errado o que se pretende alcançar, até com boas intenções, os resultados são naturalmente desastrosos. De qualquer modo, o que você acaba de ler é uma amostra (não grátis) do que se pensa e do que se faz em matéria de segurança em três estados.





