Percival de Souza
Economia e violência
Ao discutir desenvolvimento com estabilidade, um seminário próprio, o tucanato governante provocou o fato político da semana ao colocar em posições divergentes dois ministros de Estado. Um, Pedro Malan, da Fazenda, dizendo que não é merecedor de ilusões; outro, Clóvis Carvalho, do Desenvolvimento, afirmando que responsabilidade não é timidez e que ousar mais é possível. Sete de Setembro é dia da Independência. Estamos presos.
Enquanto isso, a International Police Association promovia no Memorial da América Latina, em São Paulo, um Congresso de Cidadania e Segurança Pública, cujo tema principal foi violência urbana no mundo globalizado. Tive a responsabilidade de apresentá-lo. Os ecos do Planalto soaram apropriados, porque ainda no ano passado o secretário da Segurança paulista havia atribuído os males da criminalidade galopante às consequências da crise asiática. De uma forma ou de outra, amarra-se umbilicalmente, sempre os efeitos da crise econômica à turbulência da violência nos dias atuais. De alguma forma, o crime também se globaliza pela exportação de modus operandi, práticas delituosas sem fronteiras e uma internacionalização dos Capones e Corleones contemporâneos. Na passagem do milênio, a humanidade angustiada assiste às dificuldades econômicas, a degradação social, os conflitos beligerantes e uma incerteza diante do futuro.
Quando a sociedade brasileira se mostra perplexa diante das discrepâncias entre dois ministros de Estado sobre que rumos devemos tomar, entender o que anda acontecendo em sentido dos mais amplos se torna imprescindível. O professor Roberto Romano, filósofo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), nos ensina que tal questão é mais antiga do que parece. Refiro-me ao período de transição que atravessamos. Ele lembra que a partir do ano 1200 teve início um marco histórico, quando as instituições políticas, econômicas e religiosas, como as conhecemos hoje, começaram a existir. Fim da Idade Média, início da Era Moderna, o período assinala uma certa pluralidade de mandos, e não um poder, como ocorreu logo após o século XVI. Esses vários domínios lutavam entre si, aumentando a insegurança dos burgueses, dos pobres e abastados. Indivíduos e grupos sociais no fim da Idade Média entregavam-se à autofagia social, no assassinato banalizado, ao roubo, à fraude, a todos os males que hoje sentimos na pele.
Interessante a análise do filósofo da Unicamp porque a reurbanização que sucede ao feudalismo transforma a violência em marca registrada da nova sociedade urbana. Romano acrescenta que, então, buscando tornar possível a vida urbana, foi preciso que a lei estendesse seu manto sobre todos, indistintamente.
Em outras palavras: investir no século XV significou Justiça, cotas de impostos para instituições voltadas para a educação, saúde e segurança, sem que as populações européias não saberiam o que seria o renascimento das ciências e das artes. Mas para a frente, século XVIII, Diderot faria comparações entre Hobbes (segundo ele, somos feras que devem ser domadas pelo Estado) e Rousseau (para quem somos bons por natureza mas nos tornamos violentos por deformação). Para Diderot, estas foram formas de absolutizar um prisma do ser humano. Roberto Romano arremata: Julgo equivocadas as pessoas que, posicionando-se contra a violência, buscam privilégios para si. Ou seja: é preciso pensar em todos e não apenas em si.
Veja como é complicada a exegese da filosofia e também da economia para compreendermos o que está acontecendo ao redor de nós. Mas nessa ponte entre o passado e o presente, entendemos claramente o teor do texto do autor do livro de Eclesiastes, quando afirma que nada há de novo debaixo do sol.
No cenário onde manda quem tem dinheiro e fica por baixo quem não possui idéias, não temos escapar da pregação tomista, segundo a qual para a prática da virtude é necessário um mínimo de bem-estar. Os brasileiros estão no sufoco, ouvindo retóricas nem sempre compreensíveis. Melhor buscar solução do que pregar violentas (e sangrentas) internas. Na terra de cegos, quem tiver um olho será rei.





