Percival de Souza
Vexame público
Nesta semana, em que policiais civis e militares se estranharam, brigaram, trocaram sopapos e exibiram suas armas, em Curitiba, num espetáculo deprimente, ficamos a pensar como é difícil falar-se em unificação quando se assiste a um show grotesco desse tipo.
Ao mesmo tempo, leitor de Londrina nos informou sobre os dramas em um condomínio de edifício onde um dos moradores, pelo fato de ser juiz de Direito, participa das assembléias e das demandas como se fosse um ser extraterreno, acima dos mortais, baixando o nível da toga ao ameaçar processar (?) quem ousar discordar de suas idéias estapafúrdias. Portado de juizite aguda, o referido magistrado deita e rola, extrapolando. Perguntam-me o que fazer. Respondo: representem à Corregedoria de Justiça dando ciência nos fatos e solicitando providência.
É evidente que ninguém gosta de generalizações, ou seja, partir de um episódio específico, bem situado, para alongamentos institucionais. Mas os dois casos que acabo de exemplificar mostram como ainda não terminou aquele história do sabe com quem está falando? que caracterizava o período do arbítrio nos anos de chumbo. Há pessoas que lamentavelmente se transformam diante de investidura de determinado cargo. Passam a comportar-se como se habitassem num Olimpo e as demais pessoas fossem todas seres desprezíveis, que devem obediência, reverência, submissão, conformismo.
Os policiais, com farda e sem farda, se engalfinharam nesta semana em Curitiba e deram um vexame público. O juiz arrogante das assembléias de condomínio em Londrina chega a ser ridículo no seu estilo de pretender impor sua vontade na base do grito e ameaças. Qual o problema disso? Os policiais brigões interferem em questões de convivência social e o juiz julga o semelhante. Pergunto: os personagens dos dois episódios têm bom senso para apreciar, encaminhar e decidir os conflitos dos outros? Pelos exemplos citados não, porque lhes falta amadurecimento psicológico e estrutura emocional.
Mas as escaramuças da semana não terminam aí. A proposta de reforma do Judiciário saiu das mãos de Aloysio Nunes Ferreira e passou para Zulaiê Cobra Ribeiro, ambos do tucanato paulista. Anotem e confiram mais para frente: o ministro da Justiça, José Carlos Dias, não se embala no mesmo ritmo de Zulaiê. Portanto, esqueça outra reforma, a da segurança pública, que tinha a mesma deputada na Comissão formada para alteração do status quo. Mas no caso do Judiciário, ela começou com idéias mais para corporativistas do que estruturais. Falou em eleições diretas para a cúpula dos Tribunais mas o Supremo Tribunal Federal já rejeitou essa fórmula, atendendo colocação em contrário formulada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Também quer controle externo com gente da Ordem dos Advogados e do Ministério Público. Sabem quando essa proposta vai passar? Nunca.
Mas por que estou citando esses exemplo? Porque tais comportamentos e tais idéias explicitadas por personagens de dois fatos paranaenses estão distantes anos-luz do que a população realmente deseja. Ou seja: para a sociedade, interessa ter segurança pública que funcione, pouco importando que ela lhe seja oferecida por policial civil ou militar, guarda municipal ou tropa de escoteiros. Não lhe interessa questões internas, corporativismos, tradições etc. Interessa, isto sim, que os responsáveis pela segurança sirvam bem. Idem no caso do juiz: não interessa à sociedade, que por sinal lhe para o salário, ter à sua frente alguém acima de bem e do mal, mas sim alguém que saiba distribuir justiça com serenidade. Dizendo que tem razão e por qual motivos. Sem chiliques. Nada mais.
No plano institucional, tanto as Polícias como o Judiciário podem aproveitar um sábio provérbio chinês que recomenda: quando a carga é pesada, melhor aliviar a carga do que bater no burro. A carga dos problemas sociais da violência tem sido pesadíssima. Para ajudar a diminuí-la precisamos de bons policiais e bons juízes. Não julguemos, repito, pela exceção. Mas também não deixemos para lá esse tipo de comportamento - a arrogância com vizinhos e a truculência mútua. Afinal, convenhamos: os reais inimigos da sociedade são outros.





