Caminhoneiros e meninos
Prever para prover. Esta é uma lógica militar: você percebe as coisas em ebulição, analisa quais são as partes envolvidas, os interesses em jogo, desenvolve articulações políticas e vê até que ponto as coisas podem chegar. Nos velhos tempos, chamava-se de segurança nacional tudo o que gira em torno desse contexto, eventualmente perigoso.
Na semana de estradas obstruídas, considerando-se que os transportes brasileiros dependem 63,11% de rodovias, vitais para todo tipo de abastecimento, assistimos preocupados - quem não ficou? - à escalada de estradas interditadas à força, congestionamentos de quilômetros e gente, muita gente, que nada tinha a ver com o movimento dos caminhoneiros sendo terrivelmente prejudicada.
Como diria Camões, em Os Lusíadas, ‘‘um fraco rei faz fraca a forte gente’’. Em termos rigorosamente constitucionais (ué, não seria a nossa uma Constituição cidadã?), tolher movimentos de ir e vir é tão inaceitável quanto inadmissível. Chegamos ao perigoso ponto da estabilidade democrática em risco porque muitos, lamentavelmente, consideram que o conteúdo de reivindicações, a priori consideradas justas, poderia justificar movimentos desse tipo.
Não vamos confundir as coisas, sob pena de corrermos o risco de ser vítimas do próprio raciocínio. O interesse coletivo é sempre superior às posições de grupos. Ninguém pode fazer o que bem entende a pretexto de pleitear o que considera justo. Também não é preciso ser nenhum gênio para perceber que em algumas coisas os caminhoneiros estão certos e em outras não. Certos na reivindicação, bem entendido. Os preços dos pedágios são realmente absurdos, a conservação de muitas estradas deixa a desejar (chega a ser péssima) e alguns fiscais pensam mais em achacar do que desempenhar seu papel. Os assaltos são perigo permanente. Agora, pretender uma contagem especial de pontos pelas normas do Código Nacional de Trânsito, nada tem a ver. Isso quer dizer que alguns motoristas profissionais pretendem, o que é delirante, obter o direito que outros motoristas não têm, isto é, soltar o caminhão na banguela, ultrapassar em locais proibidos, praticar e excesso de velocidade. Ninguém, profissional ou particular, pode ser liberado para esse tipo de prática.
Ou pensamos assim ou voltamos para as cavernas e andamos todos armados, como em Tombstone. Ganhar no peito, na marra, no vandalismo, na depreciação, na intimidação, na coação, na violência, não dá mais. Também não sabemos, diante disso tudo, por onde andavam os agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Estranho, porque segundo as finalidades e princípios do próprio órgão, é dele a função de ‘‘atuar na obtenção e análise de informações que contribuam para a formação do conhecimento estratégico útil ao processo decisório do governo na defesa do Estado Democrático de Direito, da sociedade, de seus agentes políticos, econômicos e sociais, da eficácia do poder público (...) e da soberania nacional’’. Isso posto, vamos adequar Camões à nossa realidade. Um fraco rei, ou seja, um governo no mínimo hesitante, torna fraca uma forte gente, quer dizer, um povo que trabalha e produz fica impotente e refém de um vulcão que não foi ele que colocou em erupção.
Por tudo isso, o conceito de segurança pública fica cada vez mais elástico, abre um leque que vai ficando sempre maior. Ao lado dos caminhões parados e fechando as pistas em todo o Brasil, assistimos a mais um lamentável episódio de rebelião na Febem e fugas em massa na cidade de São Paulo. Por quê? Porque continua se confundindo o direito de crianças e adolescentes de viver e crescer em condições de dignidade (o que ninguém pode discutir) com a legitimação e aceitação pura de atos infracionais (o que não se pode tolerar). Os eufemismos encobrem fatos com sinônimos: a Febem, apesar de tudo, quer dizer Fundação para o bem-estar (sic) do menor; este não pratica crimes e sim atos infracionais; não é preso, é apreendido. Belezas semânticas. Na hora h, como se viu em São Paulo, quando tudo fica fora de controle, chama-se a tropa de choque, o secretário de Segurança, o governador do Estado... e os teóricos e retóricos, numa hora dessas, nem sabem o que dizer com suas crenças transformadas em cinzas. Desses dois episódios da semana, uma lição: é falsa a crença de que a violência acabará por si. A sociedade precisa educar-se e agir.

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