Percival de Souza
Crime S.A.
O chamado olhar de fora, ou seja, neutro e independente, permite que se possa ter uma visão mais realista sobre questões que, muitas vezes aprisionadas nas mãos de pessoas que se consideram especialistas, não abrem para a sociedade, de maneira clara, transparente, o que está se passando nas ruas. É assim no país-continente chamado Brasil. Algo do tipo do saber encobrindo o que sabe, como diria o padre Vieira num dos seus sermões, ou o conto de Edgard Allan Poe, A Carta Roubada, mostrando estas displicentemente, em cima de uma mesa, a missiva exaustivamente procurada por todos os cantos e nunca encontrada.
Aconteceu que o professor Steven Levitt, que leciona Economia na Universidade de Chicago, USA, participou nesta semana de um seminário promovido pelas Faculdades Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (IBmec) e disparou à queima roupa: a criminalidade está roubando 10% ao ano do nosso Produto Interno Bruto (PIB). Cerca de R$ 80 bilhões. Convenhamos que o estrago é muito grande e merece profunda atenção das autoridades competentes e também das incompetentes.
Levitt deita e rola como expert em análises sobre o custo econômico do crime. Entre nós, temos o custo decorrente das desculpas, das ambições institucionais e das vaidades e um incômoda repetição de ladainhas para se enfrentar os problemas que nos atormentam. Levitt fez uma projeção para o Brasil do que acontece nos Estados Unidos. Lá, as perdas associadas ao crime atingem um impressionante patamar de US$ 330 bilhões por ano. Para chegar a esse valor, o professor de Chicago fez as contas que sempre preferimos ignorar. Por exemplo: as perdas de vidas humanas (vidas ceifadas deixando de produzir), os gastos com apólices de seguro (os estragos decorrentes das indenizações), o custo do aparato legal (toda a Polícia, promotores, juízes e o sistema penal, que engolem uma fortuna para no fim despejar de volta à sociedade mais de metade de sua clientela fixa), os prejuízos decorrentes de furtos e roubos (muita gente, por sinal, desiste até de contar o que aconteceu simplesmente por não acreditar que objetos de valor possam ser recuperados e, principalmente, restituídos) e ainda enorme desperdício que significa a cláusula dos condenados, em termos econômicos uma espécie de capital humano trancado. Observe que na lista de Levitt não entram os estragos emocionais - psicológicos, psíquicos, o trauma, o medo, as vidas literalmente destruídas em decorrência de determinadas situações.
Os US$ 330 bilhões de prejuízo para os norte-americanos correspondem a 4% do PIB norte-americano. Pelos cálculos de Levitt, podemos considerar que a criminalidade nos Estados Unidos possui índices superiores aos do Brasil e raciocinar: se por utopia a nossa criminalidade fosse extirpada, o crescimento brasileiro seria de 10% ao ano. No capítulo corrupção, entre nós uma história à parte, ele define gatunagens e propinas como um alto imposto pago pelos cidadãos. Corrupção que, segundo Levitt, engole 15% do PIB na Argentina, estatística que ele também considera válida para o nosso País. Ele informou que manter uma pessoa encarcerada nos EUA custa US$ 25 mil por ano, considerando-se as perdas impostas por criminoso à sociedade. Um policial na rua, calcula, evita cerca de 30 crimes por ano - portanto, diz, manter o policial fica bem mais barato do que arcar com as perdas por causa dos crimes. Aqui, a análise capitalista e não humanista talvez sensibilize mais corações anestesiados e mentes poluídas.
Eureka: Tudo bem, podemos dizer que os economistas seriam como os dermatologistas: não curam, mas também não matam. O que é importante a gente aprender com o professor de Chicago é que o susto mostrado nos EUA atinge US$ 150 bilhões/ano em termos de perdas de vida e sofrimento das vítimas, mais US$ 80 bilhões com a Justiça Criminal, outros US$ 60 bilhões com segurança privada, mais US$ 20 bilhões com perda de patrimônio e mais de US$ 20 bilhões do capital humano ficam imobilizados nos presídios. Não se conta quanto custa o medo e os distúrbios comportamentais.
Se o signo do medo já é marca registrada em várias cidades brasileiras, a metodologia de Levitt merece ser levada em consideração. Estamos pagando muito caro, como indivíduos, como famílias, como sociedade, como Nação. Essa conta precisa ser bem-feita entre nós, para que possamos detectar quem está enganando quem, quem está sendo inútil, quem não cumpre o seu papel. Afinal, somos nós que pagamos a conta das empresas criminais bem-sucedidas.





