Embrulho federal
Lições deprimentes partiram do Planalto ao longo da semana: a sucessão na chefia do Departamento de Polícia Federal veio recheada de ingredientes de mau gosto, atitudes lamentáveis, projetando um futuro incerto e duvidoso. Some-se a isso o bate-boca entre os presidentes da Câmara e do Senado, mais o chumbo constitucionalista do Supremo Tribunal Federal e temos aí, consumidos nesta fogueira de vaidades, os anseios pelo que realmente interessa.
Por partes: o ex-padre José Antonio Monteiro foi preso em São Luís (MA), acusado de subversão, e absolvido pela Justiça Militar em Fortaleza (CE). Acusou o delegado João Batista Campelo de tortura. O delegado negou. Só que o delegado havia sido indicado pelo presidente FHC para assumir o comando da PF antes dessa embrulhada federal. Para o bem de todos e felicidade geral da Nação, Campelo demitiu-se anteontem, diante de um clima de constrangimento geral.
Por causas: o ministro Renan Calheiros vai para o livro dos recordes por ter dado posse a Campelo durante a semana em apenas dez segundos. Campelo também merece o Guiness porque não ficou nem três dias no cargo. Para cair fora, Campelo reportou-se ao general-chefe da Casa Militar da Presidência, Alberto Cardoso, e não ao ministro. A Associação dos Delegados Federais diz estar com medo de uma ‘‘militarização’’ da Polícia da União.
Por repercussões: antes do pedido de demissão, Campelo foi à Comissão de Direitos Humanos da Câmara, monossilábico, ouvindo manifestações de ataque e defesa. Assim caminhou o Planalto, distante da planície.
Isso posto, vamos ao que interessa: o Governo Federal deu mais uma demonstração daquilo que não se deve fazer no trato da administração pública. A rigor, ninguém estava interessado coisa alguma em relação à direção da PF. O alvo político do embrulho de origem federal era o próprio presidente, que ao escolher Campelo peitou o PMDB e a influência de Calheiros, que fez cara de poucos amigos e também ameaçou entregar a pasta. Os opositores de FHC conseguiram transformar FHC em refém de sua própria decisão, porque ao fazer o embrulho federal ele mesmo deu milho aos bodes. Curioso que ao longo das três últimas décadas Campelo passou incólume por essas acusações, tornando-se inclusive secretário de Segurança do Acre. Parece que o passado condena somente se a pessoa sob eventual suspeição ocupar determinado cargo. Se não, tudo bem. Entretanto, é bom lembrar que em termos de anos de chumbo as coisas se complicam. Lá dentro do Senado, por exemplo, está o delegado Romeu Tuma, que além de ter sido chefe da Polícia Federal foi diretor do DOPS, a polícia política de São Paulo. Naquele período, muita gente amargou nos porões, mas Tuma sempre conseguiu passar olimpicamente por cima disso tudo. Parece que não ensinou o pulo do gato para Campelo.
Resultado de mais esse embrulho federal: a PF; que já não andava muito bem das pernas, fica politicamente enfraquecida, exposta publicamente como ninho de algozes quando na verdade para chefiá-la FHC foi buscar um delegado aposentado, que por sinal estudou junto com o padre, que diz ter sido torturado por ele, num mesmo seminário. Por que um delegado aposentado, nem por isso vagabundo, como diria numa incontinência verbal o próprio FHC, quando na PF existem delegados em condições de ocupar o cargo sem problema nenhum? Alguém aconselhou muito mal o presidente, que nunca ouvira falar antes em Campelo.
Toda essa confusão, política e não policial, está colocando de pé, em aplausos sem fim, a poderosa categoria dos contrabandistas, traficantes de drogas e outras que lesam os interesses da União, da qual a PF é a polícia judiciária. A bandidagem federal está aplaudindo, torcendo para que o pacote federal tenha mais e mais desdobramentos, garantindo a impunidade de forma maquiavélica, ou seja, por meio daqueles que olham para si próprios como politicamente corretos.
O Palácio do Planalto, usina de crises, precisa entender de uma vez por todas que polícia é atividade profissional que não pode ficar ao sabor das vontades de políticos e partidos. Pensar ao contrário é deixar a PF submissa, de joelhos, controlada para ser marionete de interesses.

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