Percival de Souza




Cabeças cortadas
As tropas republicanas, enfurecidas ao tomarem o arraial de Canudos em fins de 1897, pegavam os seguidores de Antonio Conselheiro, enfiavam os dedos nas narinas e degolavam os infelizes. Chamavam a isso de ‘‘gravata vermelha’’. Os estudantes de Direito da Bahia protestaram num manifesto à Nação, Euclides da Cunha demorou cinco anos para publicar seu livro-vingador, Os Sertões. Salomé, narra o Evangelho de Marcos, mas a identificação de dançarina num banquete de aniversário foi feita pelo historiador Flávio José, quis a cabeça de João Batista, num prato, quando teve a chance de pedir a Herodes o que gostaria de ter. Hércules, filho de Júpiter, conseguiu cumprir mais de uma de suas doze tarefas impostas pelo rei Euristeu eliminando a hidra que tinha nove cabeças. Decepava uma, nascia outra. Precisou de ajuda para ir queimando os pescoços do monstro mitológico à medida que cortava cabeças.
Não gostaria que cortassem a cabeça da juíza Elizabeth Khater, de Loanda, noroeste do nosso Estado. Pelo que ouvi, na TV, das fitas com conteúdo de grampo telefônico, membros do Movimento dos Sem-Terra ameaçam invadir o Fórum local e tirar a cabeça da juíza fora. Se o plano não desse certo, iriam para a delegacia de polícia local para degolar ‘‘qualquer um que apareça de farda na frente’’.
Se for ameaça, é profundamente lamentável. Se for brincadeira, como já se insinua, é de profundo mau gosto. Brandir foices ameaçadoramente faz sentido com degola. Confunde-se crise social séria, multidões de famintos convertidos em massa de manobra, a necessidade real de reforma agrária, divisão da terra para que ela produza e dê frutos, com conversão de movimento em partido político. As Nações, como os indivíduos, precisam de seu momento de verdade. Aquele quando as máscaras são retiradas para que o resto da Nação, debaixo da máscara, não se acabe parecendo com ela. Nesse episódio paranaense, que repete histórias paulistas, matogrossenses e outras, está se precisando de uma visita do Cavaleiro dos Espelhos, aquele de Cervantes, tentando mostrar a realidade pelo reflexo da imagem.
Caso social não é caso de Polícia. A última origem de toda essa confusão está no cumprimento de mandados judiciais de reintegração de posse. Dizem que a Polícia extrapolou. Cumprir tais mandados é um dos tais momentos de verdade. Polícia de um lado, que foi lá não porque quis mas porque mandaram; sem-terra de outros, exibindo miséria, subnutrição e desespero. De longe, politizados espreitam, torcendo para que o encontro vire entrevero do qual possam ser extraídos dividendos políticos tão ultrapassados quanto as teorias de focos guerrilheiros preconizadas por Régis Debray nos anos 60.
Mas imagine, nesse caso dos grampos, se fosse ao contrário. Que policiais tivessem sido bisbilhotados ao telefone - ameaça? brincadeira? - comentando que iriam invadir um acampamento e cortar a cabeça de algum líder do MST. Haveria (ou não?) uma reação enfurecedora sobre os métodos da repressão caçadora de sem-terra. Aliás, pretender - como também se anunciou - ‘‘processar’’ a juíza, que deferiu o pedido de escuta, e o secretário de Segurança do Paraná, que o formalizou, é juridicamente ridículo. Pode render barulho político. Nada mais.
Não adianta planejar cortar a cabeça da juíza porque ela cumpriu a lei. Não adianta pretender ir para cima do secretário de Segurança porque ele é responsável, em instância máxima, pela preservação de direitos da sociedade inteira, com terra ou sem-terra. Não adianta bater em sem-terra porque no lugar dele existem dezenas de outros. A solução encontrada tem de ser pacífica. Não adianta setores da sociedade se entusiasmarem com a tomada de coisa alheia pela força porque o feitiço pode se virar contra o feiticeiro. Quem já defendeu esse método precisou recorrer à Polícia quando deixou de ser estilingue e tornou-se vidraça. Não se brinca com coisa séria e nem se trata burocraticamente questões sociais graves.
Nada de mandar cortar a cabeça e nem de mandar dar tiros e pancadas. A ferocidade recíproca ou unilateral não resolver o problema que se pretende solucionar.

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