Dias Gomes
Uma conversão proibida, o táxi colhido na lanterna por um ônibus, e perdemos Dias Gomes, o dramaturgo e escritor, privando-nos da sua genialidade. O fato aparentemente nada tem a ver com o universo criminal. Mas tem sim, e vamos abordá-lo em uma espécie de pot-pourri criminológico, para entendermos que comportamentos anti-sociais envolvem hoje a sociedade como um todo. No final, pagamos a triste conta, sem levar em consideração aquilo que não precisaria ter acontecido porque simplesmente poderia ter sido evitado.
Bob Dylan já cantou: ‘‘quantas mortes haverá até que ele saiba que muitas pessoas morreram?’’ A vida tem um curso normal. A morte é uma das nossas maiores certezas. Mas morrer de maneira estúpida e violenta representa um fim antes do fim. A Globo reverencia a memória de Dias Gomes reprisando O Pagador de Promessas, a TV Cultura reapresenta amanhã o Roda Viva no qual o ilustre membro da Academia Brasileira de Letras era entrevistado. Mas por que pranteamos quando poderíamos desfrutar mais de Dias Gomes? Por que um motorista de táxi, que trabalha com carro de frota, cometeu um absurdo ao volante. Absurdos sintonizados: a taxa que a empresa do carro cobra, a necessidade de trabalhar até dezoito horas por dia para sobreviver e a insegurança tomando conta das ruas, do mesmo modo que motoristas de caminhões ingerem substâncias psicotrópicas para se manterem acordados. Quando dormem, tragédias e mais tragédias nas escolas. O motorista que causou a morte de Dias Gomes será processado por autoria de homicídio culposo, ou seja, mão agiu como intenção de matar ninguém, e tem sursis - suspensão condicional da pena - garantida para uma pena que não pode ser superior a um ano de prisão. Os donos da frota - diretor, advogado etc. - apressaram-se em ‘‘explicar’’ que tudo é assim mesmo, ninguém tem culpa de nada e até os estragos do carro o infeliz do motorista terá que pagar. Afinal, tudo está escrito nas cláusulas contratuais. O motorista precisa rodar no mínimo dez horas em São Paulo para pagar a diária do carro. Depois tem que trabalhar pelo menos mais seis, até oito horas, para defender o seu. A estrutura assassina funciona assim, mas sempre encoberta sob a capa de uma legalidade indecente, imoral, aética. Dias Gomes perdeu a vida porque se faz de conta que esse cenário dantesco não existe. É mais cômodo invocar a ‘‘fatalidade’’ e o ‘‘destino’’.
Cogitou-se, ao longo da semana, em reabrir o processo sobre o crime da Rua Cuba. Mais uma vez, o denuncismo inepto de setores do Ministério Público, que pretendia usar o depoimento com relatos periféricos, adjacentes e subjetivos para reabrir o caso do assassinato do casal Bouchabki, na véspera do Natal de 1988. A Justiça rechaçou como fez bem em rechaçar a sentença condenatória de um dos policiais militares, Rambo, envolvido no episódio do espancamento da Favela Naval, em Diadema, filmado por um cinegrafista amador. Afinal, como se entender, como pretendia o promotor do caso, que dar um tiro para o alto configure tentativa de homicídio e que um único disparo queira dizer múltiplas tentativas de homicídio? Ora, nem Torquemada na Inquisição poderia fazer uma coisa destas.
No Planalto, o secretário nacional Antidrogas, Walter Maierovitch, pretende saber através da Embaixada dos Estados Unidos quem são e o que fazem no Brasil os agente norte-americanos da CIA, agência de informações, e da DEA, agência antidrogas. Desconfio que o secretário jamais irá saber o que pretende. Os americanos vão fechar-se em copas e acabou-se. Os agentes continuarão por aí e acabou-se.
Resumo deste pot-pourri: a indiferença pelas questões consideradas menores acaba conduzindo aos problemas mais graves. Tudo alimentado pela indiferença e pela impunidade. Ou seja: na teoria do criminologista George Killing, da Universidade de Stanford, quanto mais sinal de abandono tiver uma comunidade, maior será o senso de desordem que atrai criminosos. Foi por isso que Dias Gomes morreu. A indiferença da sociedade ajudou a matá-lo na fria madrugada paulistana.

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