Desejo de matar
O Hospital Salgado Filho, no Rio de Janeiro, tinha um plantão funerário e um auxiliar de enfermagem que, pensando na comissão para venda dos caixões, asfixiava pacientes ou lhes aplicava injeções com cianureto de potássio. Um pescador gaúcho resolveu imitar o motoboy paulista. Em vez de matagal agia na praia do Cassino, cidade do Rio Grande, onde eliminou sete pessoas como se estivesse participando de uma competição. Em São Paulo, mais um motoboy foi preso acusado de violentar 15 mulheres na zona sul da Capital. Charles Bronson virou escoteiro com seu Desejo de Matar.
Parece que a sociedade está precisando passar por cursos urgentes de civilização. Aprender que ser humano não é máquina, que gente de carne, sangue e osso, coração e alma precisa se comportar como algo diferente da criação das espécies. Vamos falar de três personagens que hoje representam parte da sociedade, o auxiliar de enfermagem Edson Izidoro Guimarães, o pescador Paulo Sérgio Guimarães da Silva e o motoboy Márcio Rogério Xavier.
Edson encarna bem aquele tipo de pessoa que acha que pode decidir quem deve viver ou morrer. Está cheio de Edsons na praça: acreditam que alguém, nesta ou naquela situação, estaria bem melhor morto do que vivo. A boa morte, como sugere o vocábulo eutanásia, uma mistura de ‘‘bem’’ (eu) com a ‘‘morte’’ (thanatos).
O caso Edson nos mergulha na realidade das pessoas que defendem a morte, que segundo elas seria praticada por ‘‘piedade’’, de pacientes em situação considerada irreversível. Aliás, na escolha de quem vive e de quem morre, procedeu-se assim durante a II Guerra Mundial. E não se pense que foram apenas ordens de Hitler e dos chefes dos campos de concentração. Não: havia o lucro com os trabalhos forçados (explorados, aliás, por grandes empresas) e os negócios rentáveis com a produção de fornos, moinhos para espremer ossos humanos e outros atos tão repugnantes que é melhor parar por aqui.
Havia, portanto, assassinos executores, matadores de gabinete e criação intelectual de métodos. O prefeito carioca Luiz Paulo Conde disse nesta semana que vai ‘‘combater os urubus’’, referindo-se aos agentes funerários agindo dentro dos hospitais, numa demonstração explícita de antiética e desrespeito ao ser humano num momento psicológico dos mais vulneráveis. Aprendamos todos com o caso Edson: médico, enfermeiro, seja lá quem for que atribui para si o direito de julgar se uma vida tem valor, ou pode ser descartada, torna-se extremamente perigoso. Se ficar numa ‘‘situação financeira difícil’’, como tenta justificar-se mais se complicando ainda mais o auxiliar de enfermagem, torna-se assassino em potencial.
O clone matador gaúcho é mais do que um serial killer. O coração humano parece insondável. O ser humano é mesmo um enigma. Ir à praia, observar os casais de namorados dentro dos carros e depois atacá-los com fúria. No braço direito, um tatuagem agressiva sobre a palavra ‘‘Vietin㒒 - evocar, naturalmente, guerra, morte, destruição. Do caso, precisamos aprender sobre esse espírito de imitação, essa competição sanguinária, psicopata. O fato é que a violência tem crescido, e muito, sob olhares de muita indiferença. Parece que as isoladas tentativas de paz sucumbem diante da avalanche de violência e agressividade, como se nós dispuséssemos apenas de um copo para tentar esvaziar um Titanic afundando. Um pescador imitando um motoboy que matava do mesmo jeito é assunto que lembra ética e por consequência os meios de comunicação. Mais uma vez, é preciso pensar em limites e responsabilidades. O tema é difícil, mas vou tentar abordá-lo na tarde de hoje pela TV Globo.
O terceiro personagem é o estuprador paulista. Encarna aquele tipo que acredita poder atacar, possuir, constranger, certo de que tudo ficará por isso mesmo. Não é mais coisa de bandido, para inibir a vítima, que reluta em informar à Polícia o que aconteceu. Portanto, cuidado com a compaixão em relação aos que apavoram a perspectiva de se viver em sociedade. Como diria Victor Hugo, nem sempre ela é uma virtude: ‘‘quem poupa a vida do lobo, condena à morte as ovelhas’’.

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