Percival de Souza
As mães e
a violência
Dizia o reverendo Thomas Robert Malthus, num livro de 1798, que na Terra existe gente de mais e alimentos de menos, e esta seria a matéria-prima para a multiplicação de vícios, pobreza e violência, porque haveria mais celeridade no crescimento populacional do que na produção de comida. A primeira cresceria de forma geométrica, a segunda numa série aritmética.
A tese malthusiana foi discutida acaloradamente por muito tempo. Surgiram até os neomalthusianos, com o jargão da explosão demográfica, mas parece que não se descobriu ainda o que significa ser cidadão em país subdesenvolvido, emergente ou, simplesmente, nas nossas periferias. O fato é que na passagem do milênio estamos no meio de uma nova civilização - glacial, cínica, egoísta, consumista e solitária.
Neste domingo das Mães, quando muitas delas - como a minha - vêm à memória, na penosa escolha de grãos de trigo para moagem no moinho da saudade (como diria nosso amigo Lourenço Diaféria), o momento em que a sociedade vive possui uma difícil analogia com a data. A semana foi marcada, em alguns centros urbanos brasileiros, pela preocupação com o fato de até as crianças estarem se armando e serem inúmeros os casos de tiros dentro, à entrada e à saída das escolas. Essas crianças, alvejadas e atiradoras, têm mãe. As outras, colegas de classe e escola, também. Delas, o terrível sofrimento, quer o filho do ventre seja agressor ou vítima. Malthus foi um mito, mas a miséria em lugar da pobreza, invenção social de nosso tempo, desempenha um papel nessa história.
Como criança tem acesso à arma? Porque a arma faz parte do seu meio ambiente, das suas circunstâncias, da cultura que lhe transmitiram. Então, usar arma é considerado normal, símbolo de statusentre os companheiros de escola, do mesmo modo que resolver desavenças a tiros passa a ser elemento de destaque no comportamento social. O Ministério da Justiça está falando em impedir a venda de armas de fogo, ameaçando recorrer à edição de uma medida provisória para alcançar esse objetivo, que logicamente será bombardeado pelos lobistas de plantão. São Paulo, por exemplo, tem registro de 3,5 milhões de armas na Divisão da Produtos Controlados da Polícia Civil. Resta saber (porque não sabemos ainda) se o problema maior é o cidadão que se arma com a ilusão de defender-se ou se a questão tem como ponto central o contrabando de armas que chegam às mãos dos bandidos.
Se o Estado cumprisse o seu papel (que não cumpre) de proteger efetivamente o cidadão toda vez que ele necessite, seria possível pensar seriamente em tornar o porte de arma privativo das Forças Armadas e policiais. Se bem que existem policiais que são perigosos e andam armados... Pessoalmente, não acredito que a ameaça social do momento seja o cidadão tentando (mal, muitas vezes) defender-se porque na hora h ele tem que enfrentar sozinho situações de perigo. Não se pode atingir o cidadão quando o alvo é o bandido. Colocar as duas situações num mesmo patamar é raciocinar com ingenuidade dos escoteiros.
As mães choram tragédias que envolvem os filhos. Ainda nesta semana, traficantes do Rio de Janeiro instalaram no Complexo do Alemão, em Ramos, um circuito de TV na favela para detectar a chegada de policiais ou rivais. Traficantes que um dia foram meninos, que cresceram vendo o tráfico considerado um trabalho normal e que agora sofisticam a maneira de agir, cada vez mais audaciosa.
Aí, no final de tudo, a mãe-prisão. O cárcere, onde filhos se multiplicam na previsão de Malthus, é uma fonte geradora de crimes aperfeiçoados. A prisão, triste dizer, é uma mãe que gera muitos filhos.
Contudo, graças a Deus, ainda existem sentimentos. Certa vez, saía do Fórum Criminal, na companhia do juiz-corregedor, quando de repente uma mãe ajoelhou-se aos pés dele, pedindo para que ele a prendesse no lugar do filho, que cumpria pena na Casa de Detenção. Senti vontade de beijar as mãos daquela mulher. Há muito tempo não via mãos tão limpas.





