A morte de Fleury
Completaram-se, ontem, vinte anos da morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos principais caciques da repressão política que, durante os anos de chumbo, combateu a ferro e fogo os constestadores do regime militar. O 1º de maio de 1979 marcou, na Ilhabela, litoral paulista, a morte por afogamento do controvertido policial, também um dos chefes do ‘‘esquadrão da morte’’, bando que saía pela ruas de São Paulo como senhor absoluto da vida e da morte.
Fleury reinava, poderoso, no DOPS - Departamento de Ordem Política e Social - lugar onde se definiu o que se poderia ou não simplesmente pensar. À semelhança de George Orwell, em seu profético livro ‘‘1984’’, havia uma polícia do pensamento e tudo deveria girar, obedientemente, em torno do Grande Irmão. Esse período - longo - marcado pelas trevas e obscurantismos, balizando o que se poderia fazer ou não, estudar ou não, pensar em termos sociais ou não ainda precisa de muitos resgates históricos. Se alguns considerarem certo que a História costuma ser contada pelos vencedores, no caso da repressão política brasileira, em sua face contemporânea, ela foi contada apenas pelos perdedores. Isto é: os artifícios dos porões silenciaram, e exatamente por isso estou empenhando em fazer um livro sobre Fleury e suas conexões paralelas, tentando decifrar enigmas e mistérios. Nessa caminhada, descobertas surpreendentes surgiram vinte anos depois.
Paulo, um dos filhos do delegado Fleury, disse-me que ao longo de todo esse tempo a pergunta que precisa responder com mais frequência é: ‘‘Já descobriram quem matou seu pai?’’ Izabel, a esposa, repete que naquela noite, quanto Fleury havia bebido demais, escorregou na passagem de um barco para outro, no píer da Ilhabela, e caiu no mar, afogando-se.
O problema dessa história é que, a rigor, ninguém se conforma com o fato de Fleury ter morrido desse jeito. O homem que caçou Carlos Marighela, Joaquim Câmara Ferreira e plantou o cabo Anselmo (que insuflou um movimento de marinheiros e ajudou a deflagrar o golpe de 1964) dentro das organizações clandestinas, golpeando-as de morte, não poderia morrer de maneira tão simplória. É o raciocínio de muitos. Boatos do tipo ‘‘foi envenenado pela CIA’’, ‘‘a Máfia matou-o’’ circularam e circulam, do mesmo modo que lendas ainda cercam as mortes, por exemplo, de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitscheck.
Mas vamos abrir o baú do Caso Fleury. Se alguém que não conhece nada sobre o episódio basear suas convicções exclusivamente no inquérito instaurado, terá automaticamente muitas dúvidas. Porque o inquérito é pífio, medíocre, tudo pronto em apenas trinta dias. Foi feito com tanto descaso, ou tanta pressa, que a portaria para sua instauração está datada de 2 de abril, isto é, um mês antes da morte do delegado.
O mais intrigrante, porém, é descobrir - agora - que foi simplesmente proibida a necrópsia, não realizada por determinação expressa do então chefe da Polícia Civil, o delegado-geral Celso Telles. O diretor do Instituto Médico-Legal, na ocasião, era Harry Shibata. As más línguas dizem que ele tinha na gaveta laudos prontos de pessoas que ainda não haviam morrido. Mas ele diz que é vítima de perseguições ideológicas e paga o preço por ter assinado muitos laudos em confiança, na condição de segundo perito, como no caso do jornalista Wladimir Herzog - que desceu de um táxi para entrar sozinho no DOI-CODI e de lá saiu dentro de um caixão metálico.
Shibata, surpreendentemente, me diz agora: ‘‘cumpri contrariado ordens superiores’’ e ‘‘uma interrogação ficou na minha cabeça’’. Segundo Shibata, Fleury caiu na água, realmente, mas por algum motivo que teria de ser esclarecido. ‘‘Ele merecia algo mais profissional, foi tratado com um joão-ninguém’’. O ex-delegado-geral Celso Telles me confirmou a ordem, mas alegou a ‘‘evidência de sinais externos’’, prevista - em tese - no Código de Processo Penal.
E agora? O fato é que tecnicamente falando, em termos específicos de medicina-legal, não se determinou a causa mortis e nunca mais se poderá fazer isso. O caso prescreveu, exatamente ontem, e os detalhes sobre a morte de Fleury são mistérios definitivos, levados para o túmulo.

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