Percival de Souza
Percival de Souza
A sangue-frio
Assisti a uma entrevista de Carlos Heitor Cony, na qual ele dizia tenho medo de mim, e a princípio fiquei sem entender. Depois o escritor acrescentou: sei muito bem o que sou capaz de fazer.
Este é o ponto: até onde a raça humana pode chegar? É a pergunta que nós fazemos depois de uma dos massacres da semana (são tantos os massacres...), acontecidos em Denver, Colorado, EUA, onde dois adolescentes exterminaram a sangue-frio treze pessoas, suicidando-se em seguida. Além disso, espalharam bombas de forte teor explosivo em vários pontos da escola onde estudavam. Eric e Dylan, os matadores tresloucados, tinham manias estranhas, como andar vestidos sempre com uma enorme capa preta. Racistas, tudo indica que a escolha da data para a matança ser a mesma do aniversário de Hitler não tenha sido uma simples coincidência.
Quando escreveu A Sangue Frio, Truman Capote traçou com maestria social, de investigação e reportagem a história de uma série de homicídios chocantes. Agora, no caso de Denver, nos perguntamos o que pode existir na cabeça de adolescentes bem armados, peritos em explosivos, insensíveis ao ponto de atirar contra uma menina que implorava pela vida, caçadores de atletas, especialmente negros. Ambos de classe média, bem nutridos, em tese bem educados.
Muita coisa acontece nas escolas, nos EUA. O Departamento de Justiça calcula que entre os crimes graves cadastrados anualmente no país, boa parte acontece onde se imagina que não pudessem acontecer. O ambiente escolar é palco de 14,1% dos assaltos, 7,9% dos estupros e estima-se que 100 mil estudantes levem armas para a sala de aula. O presidente Clinton, com a autoridade de quem manda despejar bombas na Iugoslávia, perguntou o que se pode fazer para proteger os filhos das imagens violentas que deturpam as mentes dos jovens.
É possível que um psiquiatra diga , tentando explicar uma cabeça que parece oca e ao mesmo tempo pode explodir a qualquer momento, que os dois adolescentes assassinos criaram um mundo próprio, interior, e quiseram livrar-se de outro mundo que odiavam. No outro mundo, haviam minorias e atletas. Atletas costumam ser populares e famosos, o suficiente para serem odiados por Eric e Dylan.
Na sociedade enferma, existe a cultura da violência. O comportamento de Eric e Dylan, com vestes exóticas (quem sabe dark, como diríamos por aqui) revela um modelo agressivo seguido, cultuado, idolatrado. Grupos com mesma roupa, mesma cabeça, mesmos hábitos e costumes, espécie de clones seriados, onde agir agressiva e estupidamente é razão de vida e pensar é proibido. A força bruta em primeiro lugar é o cérebro em último. A boçalidade como virtude e os sentimentos nobres debochados.
Deixar o barco correr para ver como as coisas ficam depois resulta exatamente nisso. Um desrespeito aqui, uma agressão ali, o deixa prá lá que tudo bem, são omissões que provocam estímulos para esse tipo de pessoas que, sem freios contensores, acabam fazendo o que bem entendem como se fosse a coisa mais normal do mundo. As pistas para entender o fenômemo são muitas e estão aí, para quem quiser ver. Quem passa a mão no dinheiro de pessoas que buscam rapidez nos Juizados Especiais, como aconteceu em Curitiba, é um insensível moral. Quando se cultua moral de dia de festa, em momentos de coisas mais frouxas e permitidas, começa a tolerância que vai crescendo, como bola de neve. É preciso estancar esse tipo de fluxo social, para que não se lamente depois o que, na verdade, poderia ter sido corrigido antes.
A violência ficou banalizada porque de certo modo nós ficamos acostumados com ela. Nas telas maiores e menores, o sangue jorra em abundância, com close-ups que deleitam platéias sedentas. No final do milênio, concentramos o olhar em assuntos como a fome, o câncer, a poluição, a superpopulação, o avanço tecnológico, mas temos sido quase indiferentes com o crescer ininterrupto da violência.
Ora, direis, Denver não fica aqui. Certo, Denver não fica aqui. Mas temos escolas, muitas escolas, onde esse tipo de script está sendo desenhado dia após dia. Estou começando a ficar com medo de ter que concordar cada vez mais com o medo de Cony.





