Percival de Souza
O caso do sequestro do compositor Wellington Camargo, irmão dos cantores Zezé di Camargo e Luciano, possui todos os ingredientes para que se aprenda tudo o que não se deve fazer diante de uma situação dessas. Transformado em ópera-bufa, o sequestro em Goiás deixou de lado o drama humano e aquilo que se deve tentar fazer para resgatar uma vítima ameaçada até a impiedosa mutilação.
Quando os sequestradores cortaram o pedaço de uma das orelhas de Wellington, reviveram o que aconteceu na cidade de Roma, em 1973, onde fizeram a mesma coisa com Paulo Getty III, então com 17 anos, para intimidar o avô dele, o milionário americano Paul Getty, a satisfazer as exigências. Outra orelha foi cortada dez anos depois, na capital da Itália, tendo como alvo Giorgio Bulgari Calissoni, filho da dona de uma rede de joalherias. O mesmo estilo macabro foi empregado com o empresário Giulio de Angelis, em 1988, e depois com o menino de 8 anos Faruk Kassan, em 1992, na Sardenha. Nada de novo, portanto, debaixo do sol, como lemos no Eclesiastes. Os exemplos citados são todos italianos. Do outro lado do Atlântico, procurou-se aprender a lidar com o gerenciamento de uma situação atípica. Há especialistas em negociações e o assunto requer competência, tato, discrição.
Ao longo da semana - comecemos por setores da mídia - SBT e Record fizeram o que eticamente jamais poderiam. Um apresentador promoveu arrecadação de dinheiro para pagar os sequestradores. Por causa disso, a exigência de US$ 300 mil subiu para US$ 2 milhões. Cotação em dólar, porque os bandidos estão pouco confiantes no real. Outro anunciou ao vivo a localização de um cativeiro, disse que ouviu tiros que nunca aconteceram e anunciou até a retirada de cadáveres do suposto local. Uma terrível barriga, como se diria na gíria jornalística.
Foi o bastante para que a dupla de cantores saísse em périplo pelo Planalto, pedindo providências contra a imprensa ao ministro das Comunicações e aos presidentes do Senado e da Câmara Federal. Como sempre, se generaliza. Por imprensa, no caso, entenda-se especificamente duas emissoras de TV, dois programas identificados e nada mais. A imprensa brasileira, institucionalmente, não merece que cantores se arvorem em analistas políticos, éticos ou comportamentais. Cantem, e só. Até porque os dois, já que tocaram nesse assunto, já haviam dado - publicamente, pela TV - um espetáculo de péssimo gosto ao lamentar que o dinheiro é nosso e não deles, procurando retrucar exigências dos sequestradores, quando estes mencionaram o nosso dinheiro. Coisas do vil metal. Enfim, que se entendam com o Ratinho e o Saulo Gomes, que derraparam eticamente no episódio. Felizmente, imprensa brasileira é mais, muito mais, mais muito mais mesmo, do que isso.
Resta entender o que faz a Polícia no que tecnicamente se chama de gerenciamento de crise. Erra ao permitir que um irmão da vítima seja responsável pela negociação. Não é aconselhável tal circunstância por causa da vulnerabilidade emocional num confronto que exige um certo sangue frio. O negócio precisa ser neutro, ensinam os experts das melhores polícias do planeta. Aliás, a dupla de cantores também errou ao criticá-lo publicamente - e mais uma vez pela TV - sugerindo mudança de comportamento do irmão-negociador, entre um e outro show artístico.
O terror psicológico imposto pelas imagens com a caixa onde se encontrava parte da orelha de Wellington também deveria ser evitado. É o que se define como dar ouro para o bandido. Não é possível que toda a estratégia dos sequestradores seja seguida à risca, como se houvesse um script onde Polícia e mídia têm seus papéis determinados e os bandidos fossem os roteiristas. Chegou a hora de representantes da imprensa e policiais que trabalham em sequestros sentarem e conversarem sobre esses momentos em que um pouco de silêncio temporário não faz mal a ninguém. Se preservar a vida da vítima é primordial, faltou profissionalismo nessa história. Como não adianta colocar uma tranca em porta arrombada, vamos aproveitar e tirar lições para o futuro.
Por falar nisso onde está a turma que batia palmas para os sequestradores de Abílio Diniz? Sumiu. A bandidagem-pura é indefensável. Ou será que não?





