Percival de Souza
Há um nexo causal, como diriam os juristas, entre a grande apreensão de cocaína em Londrina, nesta semana, e o estudo sobre indicadores sociais concluído, também nos últimos dias, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
É que a droga apreendida em Londrina vinha da Colômbia e tinha por remetente o cartel de Cáli, aquele do Pablo Escobar, e os dados do IBGE mostram que o Brasil está perdendo em número de homicídios praticados somente para os colombianos. E isto em termos de toda a América do Sul.
É bastante constrangedor esse título de vice-campeão de homicídios e que, de acordo com os dados tabulados, pesquisados no período 1980-1996, o assassinato quase dobrou (de 13 para 25 mil para cada grupo de 100 mil habitantes) e que entre as vítimas da matança estão jovens, em sua grande maioria na faixa etária dos 15 aos 29 anos de idade.
Segundo o IBGE, as causas violentas de morte são predominantes na região sudoeste do país e, no caso específico do Rio de Janeiro, 87% dos crimes foram praticados por armas de fogo, o que também é uma das características de São Paulo, que ocupa o quarto lugar brasileiro de mortes, ranking sinistro que tem Pernambuco em segundo e Amapá em terceiro lugar.
Aos tempos da Canudos de Antonio Conselheiro e seus mal-aventurados vagantes pelo sertão, no final de século passado, o homem da caatinga não poderia imaginar que pudesse viver mais do que trinta anos. Agora, no final do século XX, o IBGE mostra a drástica redução da expectativa de vida por causa da violência, dentro do contexto que coloca como 64,1 anos a média de vida do homem é 71,7 a da mulher.
As estatísticas feitas de sangue mostram, uma vez mais, que a indiferença e a lentidão ao se tratar essa questão de frente assumem perigos fatais. Os dados poderiam ser ainda mais particularizados, e é isto que vamos tentar aqui. Se a maioria dos crimes é praticado por armas de fogo, fica notório o efeito representado pelo comércio ilegal de armas e que a simples transformação de categoria penal para o porte não autorizado - a contravenção agravada para crime - não foi o suficiente para amenizar, e muito menos inibir, a compra e venda de armas. Este continua sendo um grande desafio. O número de registros na forma da lei nada tem a ver com a proliferação de armas de variados tipos e calibres, um comércio clandestino mas tão ousado que parece coisa de estabelecimentos regulares.
O segundo ponto é a relação - no caso de São Paulo, patente - entre homicídio e tráfico ou uso de drogas, incluindo-se as chacinas nos casos dos chamados homicídios múltiplos. Mata-se muito e por motivos banais, como se estivéssemos vivendo alarmantes tempos de violência endêmica.
A jovem Tatiana Dias de Souza, estudante de fisioterapia pela Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) contou-me, ao longo de seu estágio no Hospital Heliópolis, dramas relacionados à internação de pacientes, todos de faixa etária reduzida, vitimados por tiros e facadas. Alguns ainda não sabem que perderam para sempre considerável parte de seus movimentos. Outros resistiram a tiros, obtiveram alta e foram alvejados novamente. O mundo-cão do hospital mostra partes da realidade oculta da sociedade, onde tiros e facadas são distribuidos como forma de vingança, desafios, ajuste de contas e certeza de impunidade. Prestes a formar-se, a terapeuta Tatiana está tomando contato com a realidade cruel da vida, tratada em alguns setores da sociedade como se fosse um artigo barato de mercado. Em outros pontos de São Paulo, os traficantes adotaram novo estilo de punição: em vez de eliminar fisicamente os desafios, preferem submetê-los a um sofrimento cruel, massacrante, para toda a vida, marcado também pela dependência absoluta. Alvejam as vítimas com tiros na espinha.
No domingo de bons churrascos e macarronada com frango, um tema como esse é dos mais indigestos. Não posso, porém, tapar o sol com a peneira.
A pesquisa do IBGE e a grande apreensão de cocaína de Londrina estão revestidas de um aspecto emblemático. Esse lugar que ocupamos no ranking da morte deveria nos fazer corar de vergonha. Estamos mostrando, como raça humana, até que ponto somos capazes de chegar.





