De repente, Vicente Chelotti, o diretor da Polícia Federal, não aguentou mais andar sobre o fio da navalha, caiu no ninho das serpentes e perdeu a chefia da Polícia da União, contrariando as expectativas do começo de ano que eu havia escrito aqui, nesta coluna (‘‘Felizes Anos Novos’’), ao prever a permanência dele no cargo.
A rigor, se não fosse a política e seus meandros se infiltrarem na organização policial, por vezes de forma nociva, seria mais fácil Renan Calheiros não continuar no Ministério da Justiça do que Chelotti na Polícia Federal. Mas cargos de confiança acabam sendo sempre cargos políticos. O que significa estarem sempre à disposição. Venceu a pressão organizada, interna e externa, mas nem por isso a Polícia Federal vai mudar do dia para a noite e nem de água em vinho, como ocorreu nas bodas de Canaã. Mas o que interessa tudo isso no contexto amplo de segurança pública num país de dimensões continentais?
Quando se ouve falar em federais, Eliot Ness, o chefe do grupo dos intocáveis do FBI norte-americano, acaba vindo à nossa memória. Seria a Polícia do Tesouro, que existe nos EUA e é tão poderosa que faz a segurança pessoal do presidente, se Tancredo Neves tivesse assumido a presidência. Pelo rigor constitucional, a nossa Polícia Federal é responsável pelo combate a crime específicos como o contrabando e descaminho, o tráfico de entorpecentes e os atos lesivos à União. Faz tempo que a PF e está na mira do Ministério Público Federal, quer no Planalto como em alguns Estados da Planície, entre eles São Paulo, além do Distrito Federal. O presidente FHC ficou com a fama de estar na mão de Chelotti pela força do conteúdo de alguns grampos telefônicos, arapongagem que permite a quem possuir determinado tipo de informações negociá-las politicamente. O nome mais correto para isso é chantagem. Como não seria possível uma situação dessas nem mesmo numa República das Bananas onde já se viu presidente da Nação acuado por chefe de Polícia, ainda mais da União? O desenlace do impasse fez, como sempre acontece, a corda arrebentar do lado mais fraco.
Não estou nem um pouco interessado em defender ou atacar Chelotti, porque nomear a ou b para determinados cargos públicos não quer dizer reversão automática de certas incompetências, como a PF tem sido acusada, de não descobrir nada mais além do que possa convergir para o mordomo de plantão. Mas fica disso uma lição que é importante que todos saibam: se a polícia avança o que se considera demais em certos escalões, que pretendem ser imunes a tudo e a todos, isso é sinal de alta voltagem perigosa para chefe de polícia e tanto faz ele ser um beleguim ou um Poirot dos mais belgas, imagem esculpida por Agatha Christie.
É oportuno estabelecer o que deveria e quem sabe poderia ser um paralelo entre nossos federais e os norte-americanos. A Academia deles fica em Quântico, Virgínia, e forja policiais desde o final da Guerra Civil, quando o procurador-geral dos EUA contratou agentes particulares para investigar crimes graves como homicídios, fraudes e ameaças. O lendário Edgard Hoover entrou para lá em 1935 e no FBI permaneceu por meio século. Acabou com gângsteres de todo tipo e o primeiro deles foi o ladrão de bancos John Dillinger. Ao contrário dos tupiniquins, ninguém ousou desafiá-lo e Hoover montou uma organização sadia, impecável e incorruptível. A Academia de Quântico treina 500 novos agentes por ano e mais 200 para a DEA, a agência anti-drogas. O agente do FBI aposenta-se com vinte anos de carreira e salário integral. A idade mínima para ingressar em Quântico é de 25 e a máxima de 37 anos. A academia mantém mais de 300 cursos de reciclagem de uma ou duas semanas e possui convênio com a Universidade da Virgínia.
Faço as referências acima para mostrar que existem anos-luz de diferença nas escalas de comando e na competência profissional para investigações de fatos que a sociedade espera e exige respostas. Fritaram Chelotti, mas nem por isso o novo diretor vai ser um novo Hoover e tão pouco seus superintendentes clones estaduais de Eliot Ness. Vamos cair na real, que desvaloriza de maneira tão galopante quanto nossa moeda.

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