A cortina de fumaça lançada ao ar pelo governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho (PDT) tem conotação de política de província. Disse ele, a bem da verdade amparado em números, que nos dias de Carnaval aconteceram mais assassinatos em São Paulo de que na sua terra. Os paulistas contabilizaram 230 mortes em todo o Estado, que é maior do que a Argentina, enquanto os ladrões de automóveis se apoderavam de 2.421 veículos. Eufórico, Garotinho mencionou 21 crimes de morte acontecidos na cidade maravilhosa capital.
Recém mão na massa, o secretário da Segurança paulista, Marco Vinício Petreluzzi, não quis entrar nessa de comparações, dizendo que não se trata de disputar um torneio Rio-São Paulo, até porque São Paulo tem muito mais habitantes do que o Rio. Como se tivesse alguma coisa a ver com isso, o secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, aproveitou para deitar falação, anunciando ‘‘ajuda’’ (?) do governo federal para reduzir os números da violência. Tirando o besteirol dessa conjuntura, é hora de ir ao que realmente interessa: o significado dos números.
Não é consolo para Estado nenhum ou cidade alguma citar estatísticas alheia como se fossem um prêmio de consolação. Em São Paulo, durante muito tempo foi moda citar os números de Nova York para se argumentar que os paulistas eram felizes e não sabiam.
Certa vez vi no metrô de Nova York uma frase em grafite: ‘‘Deus é a resposta’’. Um gaiato não perdeu a deixa e acrescentou com tinta vermelha: ‘‘qual era mesmo a pergunta?’’ Mutatis mutandis, é o que passa com detentores de cargos públicos transformados em analistas: é preciso saber qual é a pergunta para depois oferecer a resposta. No caso, estatística não é resposta para nada, principalmente se for usada politicamente para acenar com um oásis inexistente, como se do outro lado da divisa do Estado houvesse um purgatório. Em outras palavras: não adianta nada você morar em Londrina e pretenderem tranquilizá-lo com estatística de Curitiba e tão pouco confortar os curitibanos com números mineiros ou gaúchos. O que nós precisamos é de pessoas certas nos lugares certos, que possam ser cobradas no exercício de suas atividades.
Outro equívoco do momento é cobrar respostas imediatas de uma Polícia por muitas vezes criticada até à exaustão. Não se pode mais confundir combater a criminalidade com combater a Polícia. Lógico que na Polícia não existem apenas anjos, arcanjos e querubins, mas no momento crítico de necessidade de segurança nós temos, queiramos eu não, de acioná-la e não telefonar para um presídio. ‘‘Chama o ladrão’’ tem profundo significado em termos de ironia - mas só, porque na hora h você não tem alternativa alguma a não ser chamar a Polícia. Gostar ou não gostar dela passa a ser um detalhe.
Como ensina o Eclesiastes, bem melhor é ser repreendido pelo sábio do que ser enganado pela adulação dos insensatos. O Jurrasic Park da segurança pública em vários Estados já começa a irritar. As ‘‘explicações’’ que nada se explicam, as teses distantes dos dois fatos, a embromação em forma de erudição conduziram-nos ao estado em que nos encontramos nos grandes centros urbanos: violência banalizada, estupidez glorificada, desrespeito corriqueiro. Assim, comportamentos tolerados e estimulados levam a situações de agressão, violência e crime. Sim, muitos casos são de origens sociais, e não policiais, mas com essa explicação de sempre a sociedade nada faz quando a Polícia é desviada de suas funções para fazer os tais atendimentos sociais. Não é demais repetir que a Polícia sempre lidou e sempre lidará com efeitos e não com as causas, e aqueles que vivem cobrando ir às causas dificilmente saem justamente dos efeitos. É como a situação das nossas prisões: não estão servindo mais para nada mas, como diria Michael Faucault, nada temos para colocar no lugar dela.
Garotinho é bom de marketing. Isso é outra história. Gregori não perde uma chance de pegar uma carona em fatos políticos. Também é outra história. Vamos ao essencial e não ao periférico: explicações sobre assassinatos não podem ser feitas com brincadeiras ou ironias. Ou será que estamos nos esquecendo de que o homicídio é a violência em grau máximo?

mockup