Percival de Souza
De Copacabana ao Leblon, os gritos de pega! correram a orla enquanto policiais militares trocavam tiros com quatro assaltantes que haviam roubado um restaurante. Durante 15 minutos, choveu bala para todo quanto é lado. Os ladrões foram presos, pessoas indignadas tentaram linchá-los depois de muito pânico com homens, mulheres e crianças atirando-se ao chão para se proteger dos projéteis em fogo cruzado.
O secretário da Segurança, general José Siqueira Lima (faz tempo que, no Rio, o comando das Polícias fica com um oficial do Exército), defendeu os policiais militares no episódio, dizendo que quando bandido resiste é assim mesmo que se tem de fazer. O governador Garotinho pensou igual durante 24 horas. Depois, mudou de idéia, achando que os policiais acertaram ao prender mas erraram ao atirar. Quando se muda de idéia tão rapidamente, a conclusão é política - no caso hábil: bangue-bangue significou bala zunindo sobre quem nada tinha a ver com isso.
Estes, em resumo, os fatos. Para analisá-los, recomenda-se deitar de lado ranços e preconceitos, conclusões a priori e outros comportamentos que não servem em nada. O Rio tem sido laboratório permanente de bandidagem a ações por vezes duvidosa da Polícia. Neste caso, porém, há um ingrediente principal: a reação policial após um assalto ousado e ladrões mais ousados ainda, atirando a torto e a direito. Claro que não se pode, aqui, partir para a defesa dos bandidos e criticar pura e simplesmente a ação policial. Senão, teríamos que inverter a regra, chamando os bandidos em caso de perigo e deixando a Polícia de lado.
A Polícia que nós temos, no caso a Polícia que o Rio tem, é assim. Acuada entre desprestígio e corrupção, quando vai para as cabeças enfrenta resistências de todo tipo e de toda ordem. Mas não é tão difícil entender o episódio e deixá-lo claro para corações indignados e mentes enfurecidas. Em primeiro lugar, diante de quatro bandidos armados e dando tiros, não pode chegar com bombons e flores. Convenhamos que não. Quem está de arma na mão, disposto a acionar o gatilho a qualquer momento, não está nem aí com a segurança de terceiros, periclitação da vida e outros jargões legais para situações semelhantes.
Muito bem: chega a Polícia, que ao mesmo tempo precisa tentar capturar os ladrões, defender-se (por isso os coletes à prova de bala se tornam cada vez mais comuns no cotidiano do patrulheiro ) e proteger a vida dos outros. Sendo assim, em lugar de grande movimentação, não e aconselhável o uso de armas como metralhadoras e escopetas. A precisão, no caso, é para revolveres e pistolas semi-automáticas. Ao mesmo tempo, mesmo que o bandido esteja no alcance da alça da mira, deve-se evitar o disparo se houver a menor hipótese de o projétil atingir uma pessoa que não seja da mobilização policial. Vamos exemplificar: se um bandido mantém, armado, uma pessoa como refém, jamais o policial deve disparar se o seu gesto significar qualquer tipo de risco para a vítima. Se, durante um assalto a banco, o policial puder apertar o gatilho e dispara rajadas de metralhadora ou sequência de projéteis com arma automática, mas isso colocar em perigo clientes que estão dentro do banco, tal ação não faz o menor sentido. Por uma razão simples: de que adianta eventualmente alvejar o marginal se o motivo principal da ação policial, a vítima, puder ser atingida por engano, erro de cálculo ou coisa parecida?
Já vi esse tipo de filme várias vezes. numa delas, em São Paulo, um atirador de elite fez disparo de fuzil e alvejou a cabeça do assaltante que mantinha uma jovem professora como refém. O projétil fez uma trajetória transfixante e matou a moça também. Não adianta tentar explicar: a vítima morreu. Portanto o caso do bangue-bangue no Rio serve como lição para policiais de todo o Brasil: as ações são feitas para proteger as pessoas, e não ameaçá-las, colocá-las em risco, constrangê-las.
Pensar assim é agir como profissional. De amadores, já estamos fartos.





