Percival de Souza
O tema das libações alcoólicas tem sido considerado indigesto. E só tocar no assunto e só aparece gente lembrando os tempos da Lei Seca para dizer que nos anos 30 essa tática de combate a Al Capone não funcionou direito. Como o álcool também é droga, também existem pessoas para dizer que a sociedade é hipócrita ao tolerar drogas lícitas e rotular algumas de ilícitas, como a maconha e a cocaína. Tudo isso deve ser levado em consideração na hora de uma discussão medianamente inteligente sobre o assunto - mas não é este o punctum saliens dessa coluna.
Prefiro referir-me hoje ao chamado faz de conta, isto é, uma prática que tem sido comum na nossa sociedade e quem sabe possa ser resumida assim: as coisas se passam de determinado modo mas eu faço de conta que não sei. O envolvente mis-en-scSne envolve pessoas e instituições, o que levou Pirandelo a sintetizar tal postura de modo brilhante: assim é, se lhe parece.
Mas o fato é que, independentemente das correntes de opinião, o álcool - e vamos nos abster aqui de qualquer conotação moralista - tem sido utilizado, e como, para lubrificar a violência. Recentemente, numa das regiões do Rio de Janeiro, decidiu-se implantar um toque de recolher nos botecos à uma hora da manhã, espichando-se para as 3 horas nos finais de semana. As reações contra a medida foram vigorosas.
É interessante encontrar um parâmetro fora do país. Em Londres, os pubs fecham às 11 horas da noite e fim de papo. Nos Estados Unidos, existe limite de horário para consumo de bebidas alcoólica mesmo que você esteja dentro de um restaurante sofisticado. O halterocopismo sem limites é exclusividade nossa.
Nesses tempos de moratória, fluxo cambial, evasão de dívidas e elevação da taxa de juros, tem gente que busca socorro não nos experts em economia mas nos copos. As consequências todos nós sabemos quais são, embora façamos de conta que não: o bebum sai calibrado, provoca um acidente. Mata ou morre, provoca lesões leves ou graves, e a origem de tudo é a bebida. No Código Penal, chama-se a tudo isto de culposo ou doloso, em termos de lesões corporais ou resultados fatais.
Mas também existem os crimes, principalmente homicídios, cuja explicação reside no rótulo motivo fútil. Sempre consequência de uma rodada de bebidas e uma discussão sem pé nem cabeça sobre questões das mais bizantinas. Na zona sul de São Paulo, onde acontecem muitos crimes assim, o Núcleo de Estudos sobre Violência da Universidade de São Paulo saiu dos gabinetes e colocou os pés na poeira (nas quebradas da periferia, muitas ruas são sem asfalto) e descobriu que os personagens dos assassinatos, vítima e autor, quase sempre estão no interior de um bar, saindo dele ou a caminho. É como se fosse, camadas sociais desprovidas de quase tudo, o bar funcionasse como uma extensão de sua casa. Ou seja: na humilde casa onde essa gente mora não existe sala e o espaço de lazer para que mora ali é o bar, onde se toma umas e outras a pretexto de afogar as mágoas.
Quando esses mortos atingem picos alucinantes, as autoridades da plantão buscam explicações e muitas vezes estabelecem metas para reduzir os índices sempre preocupantes de assassinatos. Excluídos os crimes de mando, passionais e cobranças de dívidas por parte de traficantes, esse tipo de homocídio é quase impossível de se prevenir. Em termos de atuação policial, o que fazer na proliferação sem fim dos botecos, em certos lugares mais numerosos do que farmácias, para prevenir bate-bocas após consumo de doses incontáveis de bebidas? Nada, praticamente nada. Portanto, componentes sociais múltiplos agem como fatores geradores de criminalidade. Enfrentar esse quadro depende de educação, muita educação, consciência de uma vida saudável e de que a criminalidade é sempre produzida por causas e fatores - aquilo que faz com que ela existe e tudo o que contribui para ela florescer. O álcool é um desses fatores. Seus efeitos vão além das cirroses hepáticas. Pode ser absurdamente mais cômodo a gente fazer de conta que não é assim. Mas é.





