O Ano Novo bate às portas e para este 1999 quero, de início, repetir palavras do Padre Vieira, proferidas em 1641 na Capela Real, onde o mestre da oratória desejou bons anos, e não apenas bom ano, argumentando: ‘‘Quem tem obrigação de dar bons anos, não satisfaz com um só, senão com muitos’’.
Mas quem tem obrigação de dar bons anos? De um lado, o governo, é claro, o Executivo, porque foi ele quem se apresentou ao povo, cabalando votos, prometendo dias melhores, já que os atuais estão de amargar. Para garantir bons anos, entretanto, não basta apenas o Executivo. Cada vez mais, vai ficando patente que somente a sociedade organizada pode gerar condições de corrigir distorções gritantes, que nos empurram cada vez mais para a minha área de atuação profissional - a segurança pública, em sentido amplo, e a justiça. Gosto de olhar esse campo de trabalho como uma espécie de rede de esgotos da sociedade, que percorre um caminho subterrâneo e desemboca numa delegacia, numa viatura, numa Vara judicial ou na cadeia. Os personagens que caminham por esse bueiro - Antonio Callado diz, em Quarup, que é impossível preservar um filete de água pura num cano de esgotos - são socialmente desqualificados, em sua gigantesca maioria. Hipocritamente por saber que o crime está disseminado em todas as categorias sociais, a sociedade criou o mecanismo da ‘‘prisão especial’’ para os portadores de nível universitário. Que pode ser traduzido assim: se você cometeu um crime como qualquer um mas teve oportunidade de estudar mais um pouco, adquiriu então a condição de ficar segregado, mas separado, para não misturar-se com a ralé. É aquela história das más companhias, nunca bem definidas, comprovando que George Orwell tinha toda a razão de escrever, na sua Revolução dos Bichos, que todos são iguais perante a lei mas alguns são mais iguais do que os outros.
Mas o que significa desejar bons anos nesse contexto? Em sentido macro, nada vai mudar no nosso pedaço. O Ministério da Justiça, que já teve um Brossard, um Saulo Ramos, continuará de Renan Calheiros, bem mais fraco do que os exemplos citados, mas o que se há de fazer? Por consequência, Vicente Chelotti continua chefiando a Polícia Federal, apesar dos puxões de orelha de Antonio Carlos Magalhães. O script federal, portanto, continuará o mesmo, inclusive a queda de braço entre diretor geral da PF e o chefe da Casa Militar, general Cardoso, na discussão - bizantina - sobre quem manda mais no combate e prevenção às drogas.
Bons anos, no nosso campo, querem dizer não buscar explicações apenas escapistas para casos absurdos de vidas ceifadas, agressões com ferimentos e roubos e furtos praticados como se fossem atos normais. Ao longo deste ano que está nos estertores, aprendi que existe uma insensibilidade generalizada para os casos considerados ‘‘pequenos’’ de crimes contra o patrimônio, que causam transtornos imensos às vítimas. Explico: o ladrão se apodera de um veículo velho. Na delegacia, dão risadas na hora de se registrar a queixa. Mas tal carro velho é tantas vezes o ganha-pão daquela vítima, que precisa dele desesperadamente para a luta de cada dia. É nesse contexto que distribuir a Justiça é fazer valer as normas do Direito. É com esses personagens que a retórica nada vale diante da realidade dos fatos. É difícil, mas todos temos que batalhar para conseguir chegar aos felizes anos novos de Vieira. De fato, não nos basta mais apenas um. Precisamos de vários. Porque merecemos.

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