Percival de Souza
Belezas aqueles quase 4 mil metros de ponte que ligam Mundo Novo, no Mato Grosso do Sul, à Guaíra, no Paraná. Cruza-se o rio que parece oceano e tem-se a oportunidade de, através de balsa, chegar à paraguaia Salto del Guayra. Mas logo, porém, verifica-se que pode haver uma mistura de shopping faroeste, eis que em Guayrá convivem o lado turismo e o lado crime, como se pudessem fundir numa só imagem.
No mês passado, um brasileiro cuja profissão é roubar carros atravessou de Oliveira Castro (PR), exatamente no Porto Tigre, para o lado de lá, onde está montado um precário alojamento militar da Marinha paraguaia. Como se fosse num encontro normal de negócios, o brasileiro - que se chama Odair Camargo - foi conversar sobre dinheiro com um tenente paraguaio, receptador que se chamava Miguel Manuel Alfonso. Chamava-se porque Alfonso morreu, baleado pelo brasileiro que, ferido, atravessou o rio de volta para nosso território. Essas coisas ligadas a cabritos, isto é, os carros roubados, segundo a linguagem dos ladrões, podem terminar de vez em quando desse modo. Quem está na chuva pode se molhar, diria o filósofo suburbano.
Até aí, essa história poderia parecer um simples ajuste de contas, não fossem os detalhes complementares. Do lado de lá, a curriola do Alfonso descobriu que Odair, o fugitivo, tinha mulher e dois filhos em terras paraguaias. Não deu outra: encarceraram os três, enfiados num cubículo imundo em Guayrá, e transformaram-nos em reféns. Ou seja: somente serão colocados em liberdade se Odair aparecer. Se Odair der as cara, sabe que será sumariamente executado. Então...
Na semana passada, reuniram-se em Campo Grande, MS, membros de uma comissão parlamentar conjunta do Mercosul. Fiquei de olho: poderia ser que surgisse alguma manifestação sobre o assunto. Nada. Fui conversar, já em Guaíra, com o jovem advogado Ademilson Reis, designado pela OAB paranaense para dar uma estudada no caso. Ele atravessou de balsa, conversou com a colega Galdyz, advogada paraguaia, que o aconselhou a pisar no cuidado nesse terreno minado, referindo-se à íntima ligação entre força policial e Governo, autêntica longa manus. Ele foi à pocilga onde a mulher inocente e dois filhos estão presos, conversou com um comissário e ouviu que todos continuarão encarcerados enquanto ele, Odair, não se apresentar.
Desistindo dos caminhos legais, Reis partiu para os atalhos dos defensores dos direitos humanos, mandou carta para o Ministério da Justiça; clamando aqui e ali, procura sensibilizar a quem possa interessa-se pelo caso que transforma Kafka em leitura paralela. Neusa, a mulher de Odair, contou ao advogado que nos primeiros dias sofreu choques e torturas e ouviu dezenas de vezes a pergunta: Onde está o esposo?
Essa história é revelada aqui, na Folha, pela primeira vez. Estava oculta, a sete chaves. Parece até que aquele cárcere, tipo Memórias, Graciliano Ramos, ou Casa dos Mortos, de Dostoiewski, que um dia não merecerá recordações, possui um clientela que não interessa a ninguém. É evidente que tamanho descalabro não pode continuar. Registramos aqui o nosso clamor, o nosso grito, o nosso protesto, esperando que pelo menos o eco responda. Diante de absurdos praticados por aqueles que tem a obrigação legal de zelar pelo cumprimento da lei, costumava-se indagar na Roma antiga: quis custodiet ipsos custodes? Em português: quem guardará os próprios guardas?
O abuso de Guayrá corre lado a lado com a audácia de assaltantes que há duas semanas na estrada Sidrolândia-Nioaque (MS) assaltaram literalmente um caminhão do Exército brasileiro (9º Batalhão de Engenharia e Construções), amarraram o cabo-motorista num árvore e levaram o velho Mercedes 1936 para Pedro Juan Caballero.
Esse mercocrime está passando os limites das mais candescente tolerância. Não é possível assistir-se a esse espetáculo deprimente como se nada pudesse ser feito. O caminhão foi devolvido, na semana passada, após negociações sem Itamaraty. Espero que, tornando público o caso de dona Neusa e seus dois filhos, seja colocado um ponto final nessa opereta-bufa. Não se trata de defender Odair, a priori, e sim demonstrar o óbvio: não existe extensão de punibilidade, a menos que no Paraguai tenha sido inventado um novo Código.





