A fofocagem tomando lugar da informação, depois de espiões sutis como um paquiderme numa loja de louças fazerem relatórios com o carimbo (sempre em letras vermelhas) de ‘‘confidencial’’, elevando a condição de mero informe, para usar o jargão técnico, em fato meticulosamente comprovado, lançou a pecha do descrédito da área. A avacalhação chegou ao auge com o Araponga, aquele personagem de novela que satirizava os infiltrados agentes tupiniquins. É bom que tudo isso fique claro, inclusive um fato que ocorreu em São Paulo, no auge dos anos de chumbo, quando os agentes do DOPS sairam atrás de Sófocles, que consideraram um perigosíssimo subversivo autor de concorrida peça teatral em cartaz. Queriam prendê-lo.
A polícia política foi para o espaço, o Serviço Nacional de Informações morreu mas ainda existe, nas polícias, e particularmente nas militares, um setor para tais coletas de dados, a pretexto de informar os canais superiores competentes. Todos fazem de conta que isso não existe. Mas existe, e não com raros desvirtuamentos e deformações, até porque é o único espaço, porque relativamente secreto, em que subalterno pode ‘‘canetear’’, isto é, por no papel informações comprometedoras alusivas a superiores. Nessa hora, dane-se a hierarquia, mas alguns setores policiais militares adoram cultivar a contradição que está entre os motivos principais que levam tais corporações a brigar constitucionalmente, de vez em quando, como se esta fosse uma permanente luta de vida ou morte.
Arapongagem à parte, ninguém vive, inclusive nas sociedades democráticas, sem informação. Ela é essencial para planejamento, previsão, ponderação, medida correta a ser aplicada na hora certa. Quem não quer saber, quer errar, diria Vieira.
O general Alberto Mendes Cardoso, chefe da Casa Militar na Presidência da República, é um homem muito mais forte do que se pensa. Veja que o planejamento brasileiro com relação às drogas, centralizado na recém-criada Secretaria Nacional Antidrogas, cuja chefia foi entregue ao competente e dedicado juiz de Direito Walter Fanganiello Maierovitch, saiu da órbita do Ministério da Justiça e foi para a Casa Militar. Qualquer semelhança com o estilo dos Estados Unidos não é merca coincidência. Além disso, nas reuniões ministeriais o presidente FHC já disse mais uma vez que tem um apreço especial pelo general, pelo fato de através dele receber soluções e não problemas. Na crise da PMs, no ano passado, lembre-se: foi o general que sugeriu a FHC o que e como fazer.
Explicado por que o general é um homem forte no Governo, vamos à sua idéia de criar a Abin, Agência Nacional de Inteligência. Cardoso foi defender a tese abertamente, num seminário reservado a convidados especiais realizado na Universidade da Campinas, Unicamp. Explicando os objetivos da Abin, o general Cardoso a definiu como um organismo que, ‘‘à semelhança de congêneres estrangeiros, está projetado para, em fiel observância da Constituição, das Leis e da Ética, atuar na obtenção a análise de informações que contribuem para a formação de conhecimento estratégico útil ao processo decisório do Governo na defesa do Estado Democrático de Direito, da sociedade, de seus agentes políticos, econômicos e sociais, da eficácia do poder público, da probidade administrativa e da soberania nacional.’’
A Abin, explicada pelo general chefe da Casa Militar, estará subordinada diretamente ao Presidente da República, ‘‘o qual receberá com exclusividade informações e análises, e a quem cabe a responsabilidade indelegável da segurança do Estado Democrático de Direito, de suas instituições e de seus agentes, assim como a decisão sobre quem e como partilhar esse conhecimento, em proveito do interesse nacional’’. O general também inseriu na Abin a preocupação entre inteligência de Estado e Ética, afirmando que caberá à ética ‘‘impedir que a lógica do analista o desvie para os trilhos da opinião, ao invés de dirigi-lo para o campo aberto da verdade’’.
Esperamos, sendo assim, que não se confunda nunca mais o focinho de porco com tomada nem encíclica com bicicleta de uma roda só. As informações, não manipuladas, são de fato necessárias aos modernos empreendimentos, quanto mais em segurança - privada, pública ou do Estado. Assim sendo, que venha a Abin, mas que morram e sejam rapidamente cremados todos os arapongas.

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