Percival de Souza
Aconteceu em plena Avenida das Américas, Barra da Tijuca, Rio, para todo mundo assistir: o filho do falecido chefão do jogo do bicho carioca, Castor de Andrade, foi morto a tiros dentro do seu jipe importado, sendo eliminado também seu segurança particular. O assassino fez questão de dar, tranquilamente, os tiros para conferir.
Paulo Roberto de Andrade, 47 anos, que chegou a ficar preso durante dois anos e dez dias, era tido e havido como peso pesado da contravenção no Rio de Janeiro, herdeiro dos tempos em que inverteu-se, hereticamente, o inspirado Salmo número 23, de Davi, para se espalhar: O Castor é o meu senhor, nada me faltará.
Essa cultura zoológica teve o seu esplendor quando os atrevidos bicheiros discutiam seus negócios com frases do tipo: o macaco está fazendo careta; a cobra está fumando para o nosso lado; cavalo quando perde o galope está passando por burro; está na hora da onça beber água e não podemos entregar o touro às piranhas.
Todas essas frases possuem analogias com situações concretas, nas quais a contravenção se aliou, ao longo de histórias recentes, do tráfico de drogas ou das escolas de samba, sempre com uma face exposta e cativante de benemerência: os contraventores se apresentam como amigos do povo, colaboram com obras sociais e não raro demonstram um poder paralelo que suplanta o do Estado legal.
O jogo, enquanto clandestino, tem a ligação siamesa com drogas e exploração da prostituição. A execução de Paulo Andrade mostra uma vez mais, porém, que aparentes escoteiros na verdade são Capones nada disfarçados, dispostos a tudo para manter o poder e status, pouco se importando com as regras formais na sociedade, já possuem código ético particular, movido a dinheiro, acostumados a abrir e fechar portas e a comprar honra, dignidade, moral e respeito.
Quando se fala no clã do Castor de Andrade, deve-se lembrar, sempre, do poder representado pela cúpula da contravenção, que mandou e manda, ditou e dita normas, possui na gaveta gregos, troianos e espartanos, sempre a posar de vestais mas comprometidos até o pescoço com seus verdadeiros patrões, como se assistiu em recente julgamento no Rio de Janeiro, onde havia réus para todos os gostos, já que oriundos de expressiva representação social.
O leitor poderia perguntar, eventualmente: que tenho eu, aqui no Paraná, a ver com tudo isto? A resposta é simples: tudo. Tudo porque a execução do filho do contraventor deixa transparente que a tolerância absoluta com a prática de crimes e contravenções, como se assiste em várias partes do país, fortalece o lado que deveria ser combatido e debilita o aparelho legal. Nestes tempos de moral frouxa, é como se esse conceito podre de ética que vigora em certos setores da cidade maravilhosa representasse uma ameaça aos demais Estados da Federação. Porque nas devidas proporções existem Castores por toda parte. Em vez de tolerância zero que aliviou as preocupações dos nova-iorquinos, a tolerância absoluta, que transforma o proibido em permitido, o abominável em elogiável, o execrável em confiável.
A sociedade paralela do crime e da contravenção possui juízes que são carrascos ao mesmo tempo, decidindo em reuniões secretas quem pode viver e quem dever morrer. No país de memória curta, é oportuno lembrar que o filho de Castor estava no grupo que passou algum tempo no cárcere por decisão corajosa da juíza Denise Frossard, que recentemente trocou a toga pela política (uma pena para a magistratura), naquele rumoroso processo que envolveu toda a cúpula do jogo do bicho no Rio.
Há verdades que devem ser ditas e não podem mais ser escamoteadas: o poder paralelo de criminosos e contraventores se transforma em alguns lugares do Brasil em poder real, poder de fato, poder que impõe respeito pelo temor, reverência pela condescendência, impunidade pela omissão. Essa triste realidade supera a ficção de muitos filmes. A execução do filho de Castor foi emblemática. Poucos sinos dobrarão por esta vítima que um dia acreditou que o dinheiro fosse a única razão de viver. Esqueceu-se, apenas, de que alguém poderia ser comprado para matá-lo.





