O tema mercosul entrou nos círculos acadêmicos, é tema para simpósio estadual, momento propício para discutir as inter-relações entre os países membros e as suas respectivas vantagens para o crescimento salutar da economia.
Assisti faz poucos dias, a algumas cenas extra-autos, quer dizer, cenas que acontecem no dia-a-dia mas nunca são escritas. No palco da vida, como escreveu Machado de Assis, assistimos a um baile de máscaras, no qual alguns chegam e outros partem.
O palco foi Foz do Iguaçu. Do outro lado a paraguaia Ciudad del Este. O empresário paulista, que teve o seu carro importado roubado, viaja não para ver as cataratas - que por sinal estão deslumbrantes - mas para tentar conseguir resolver o que as autoridades constituídas não resolvem, isto é, ter o carro de volta depois de descobrir onde ele está.
Primeira máscara: o receptador, do lado de lá chamado comerciante estabelecido, exibe uma tabela de preço com a cotação atualizada do mercado de automóveis brasileiros. A vítima tem, então, a sensação de viver um processo kafkiano, pois sua única chance de reaver o bem que por direito lhe pertence é comprar o seu próprio carro. Isso mesmo: você é roubado e, se quiser ter o carro de volta, precisa comprá-lo.
Como as coisas só funcionam assim, e não há como fugir de uma bolsa de valores clandestina: comprar o que pertence a você mesmo pode ser negociado dentro de uma tabela que oscila entre 20 e 25%, e nada tem a ver com os movimentos asiáticos ou de Nova York. Nessa hora, algumas companhias de seguro costumam pular do barco, entregando o cliente à própria sorte, alegando um pretexto qualquer para protelar o ressarcimento que um dia foi contratado. A lei? Ora, a lei...
Enquanto se entabulam as negociações, é possível saber o que anda rolando dentro de mercocrime. Carros importados e roubados na Argentina receberam recentemente placas de Campinas (SP) e atravessaram a ponte superamiga. Os mercocriminosos não perdoaram nem a Mercedes de um médico ligado por laços profissionais e de amizade à chefia de Executivo estadual paranaense e passaram o carro para o lado paraguaio onde reavê-lo passa obrigatoriamente por esse tipo de processo.
Mas é preciso dar legitimidade às tratativas. Para não haver dúvidas, elabora-se um contrato, firmas são reconhecidas em cartório e assim firma-se um pacto com aparência das mais estranhas para quem não é familiarizado com esses meandros dominados por Capones e Corleones que compensam o provincianismo por uma audácia sem limites.
Preparada a papelada, é feito o pagamento - sempre em cash - e firmado o compromisso de que, rodando por caminhos misteriosos e de forma que não vem ao caso pelo contratado revelar, você recebe o carro roubado em sua cidade de origem. Por onde passa, tanto do nosso lado como do outro, tudo recebe os carimbos burocráticos de praxe, as liberações formais, num sistema de controle impressionante que funciona somente depois que tudo se consumou. Nada pela vítima, tudo pelo crime.
Lendo isso, você poderá pensar que o relato possa ser uma metáfora, ou quem sabe uma parábola. Não, não é: ele é estritamente factual, com elementos que eu mesmo vi, presenciei, assisti, pensando que fosse personagem de filme. Os ingredientes do baile de máscaras parecem, em certos momentos, ser uma ficção. Aos poucos, a gente cai na real e descobre que é assim mesmo, sem tirar nem pôr.
Esta experiência representa uma amostra grátis do mercocrime. Nossas autoridades ainda não pensaram em crime no mercosul e, assim, só para ficar nessa histórias sempre nebulosa e de ligações clandestinas com vários níveis de poder, montou-se uma indústria forte, poderosa e altamente rentável. O caso fica aqui resgistrado, contado a quem possa interessar. Ninguém me contou. Eu assisti a tudo isso. Agora, entenderei melhor o Juca Pirama, de Gonçalves Dias. Repetirei com ele: ‘‘Meninos, eu vi.’’

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