Percival de Souza
Segurança pública, segurança nacional, ordem pública, paz social... os conceitos, nesses tempos de sem-terra e sem teto, invasões e resistências, tiros e mortos, remetem-nos pela máquina do tempo até Canudos, caatinga da Bahia, onde há precisos 101 anos, que se completam amanhã, tropas do Exército, auxiliadas por forças policiais do Estado destruiram o arraial construído por Antonio Conselheiro, o beato do sertão.
Do 5 de outubro de 1897, data que Governo, Exército, Igreja, Legislativo e Judiciário procuraram apagar da memória, já que todas essas instituições estavam empenhadíssima em destruir aquilo que consideravam um foco perigosos de resistências monárquica, séria ameaça à República recém-proclamada, até o 5 de outubro deste 1998, pouca coisa mudou. Em Canudos continua tudo na mesma - a seca, a miséria, o abandono, os místicos vagantes com mensagens de esperança. O que aconteceu, e pude presenciar isto agora, foi que destruída a primeira Canudos a tiros de canhão e um incêndio provocado pelo derrame de muitas latas de querosene e bombas de dinamite, lançadas furiosamente pelas forças republicanas, edificou-se uma segunda cidade sobre a primeira. Depois, nos anos 60, na construção de um açude, Cocorobó, as águas cobriram tudo.
A cidade, situada no polígono das secas, sofreu os efeitos da estiagem e a capacidade do açude, 245 milhões de metros cúbicos de água, baixou em quase 80%. Tornaram-se então visíveis as ruínas de Canudos: o arco de sua Igreja, o primeiro cemitério, a base de sustentação de um canhão, que os conselheiristas chamavam de matadeira e outras coisas mais, como se essa História, que significa o maior conflito civil da nossa História, não pudesse mesmo ficar sepultada.
Mas por que tanto interesse em deixar Canudos no limbo? Porque as instituições acima mencionadas tinham culpa no cartório. A saber: o Governo cujo presidente Prudente de Moraes ordenou expressamente que ali não ficasse pedra sobre pedra, para que não possa mais se reproduzir aquela cidadela maldita. A Igreja, que mandou para o arraial uma missão religiosa, chefiada por um frei capuchinho italiano, com o objetivo de dissolver os seguidores de Conselheiro, que aquela altura, com 20 mil almas, representavam a segunda maior população da Bahia. O Exército fracassou em três sucessivas expedições militares, rechaçadas pelos adeptos do Conselheiro no estilo embrionário das guerras de guerrilha. O Legislativo ficou quietíssimo. O Judiciário, Supremo Tribunal Federal inclusive, nenhum processo.
A carnificina - os prisioneiros miseráveis foram implacavelmente degolados, sem dó nem piedade - só veio à tona com a literatura: primeiro, o estudante Alvim Horcadus, da primeira Faculdade de Medicina brasileira, voluntário nos hospitais de sangue da campanha militar, com sua Descrição de uma viagem a Canudos. Depois, o jornalista Manoel Benício, com seu O Rei dos Jagunços. Mas foi somente Euclides da Cunha, cinco anos depois que tudo terminou, lançando seu livro-vingador, Os Sertões, é que deu ao assunto a dimensão que ele merecia.
Mas por que tanto empenho em destruir Canudos e seu criador, Antonio Vicente Mendes Macial, o cearense de Quixeramobim? Hoje, quando a História permite a análise crítica, distanciada, percebe-se claramente que tudo não passou de um grande e lamentável equívoco. Naquele fim de mundo, como escreveria bem mais tarde Vargas Llosa, não havia nenhuma ameaça à República. Os miseráveis seguidores do Conselheiro, na verdade apenas mal-aventurados, alimentaram crenças na existência - utópica - de um lugar onde corressem rios de leite e as barrancas fossem de cuscuz.
O equívoco de Canudos nos coloca no Brasil de hoje. O que é ordem pública? Que critérios devem ser adotados, na mobilização de tropas armadas? Que fazer com os excluídos? Cento e um anos depois, é hora de estudar, pesquisar, descobrir e continuar tirando lições. Para que não se lamente, no futuro, novos e terríveis equívocos.





