Cem anos se passaram. O século de lançamento de Os Sertões, de Euclides da Cunha, completa-se amanhã, dia 2, e a tragédia de Canudos, no sertão da Bahia, arraial construído por Antonio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, e destruído por uma quarta expedição do Exército, em 1.897, continua provocando a aparição de novos livros, ensaios, seminários e debates.

O episódio que se pretendeu sepultar - se não fosse Euclides, o que aconteceu naquele fim do mundo, como se diz no título do livro de Vargas Llosa, não seria conhecido - traz dentro de si uma série de detalhes impressionantes. A começar pela origem do conflito entre jagunços e tropas da República novinha em folha: a cobrança de impostos. Uma das primeiras novidades da República, esse embrião do leão do imposto de renda irritou Antonio Conselheiro (e nos irrita hoje), um peregrino pregador que não se conformava, também, com o fato de a Igreja perder a administração dos cemitérios, como acontecia até o Império. Conselheiro rasgou os editais de cobrança, numa pequena cidade. Depois, começou a juntar num lugar, Canudos, pessoas desprezadas pela sociedade, que ali trabalhavam comunitariamente (a utopia feita realidade) e eram obrigadas a rezar várias vezes por dia. A Igreja Católica incomodou-se com o Conselheiro, pregador leigo que juntou cerca de 30 mil pessoas em Canudos, a segunda maior população da Bahia de então, e mandou um emissário para dissuadir os fiéis de seguir um homem que considerava fanático. Os mal-aventurados preferiran continuar com ele. A Igreja instigou o Governo a dar um fim naquilo, e no festival de equívocos considerou-se que Canudos seria uma ameaça à República recém-proclamada. Decidiu-se destruí-la, com tiros de canhão, bombas de dinamite e incêndios provocado por querosene. Muitas cabeças foram cortadas no massacre impiedoso.

Euclides acompanhou a quarta expedição militar (as três anteriores foram rechaçadas) e como correspondente dessa guerra civil publicaria o livro, que ele mesmo chamou de ''vingador'', cinco anos após o término do conflito. A Geração Editorial, na comemoração do centenário do livro de Euclides, lançou ''O Clarim e a Oração'', coordenado pelo professor Rinaldo de Fernandes, doutor em letras pela Unicamp, que honrou-me com o convite para ser um dos ensaístas. Um deles, Roberto Ventura, professor de teoria literária e literatura comparada da USP (perdeu a vida num acidente de carro há três meses), escreveu sobre Euclides e o Conselheiro: ''Ambos foram construtores itinerantes, um de capelas, igrejas e cemitérios, o outro de pontes, prédios e estradas. Ambos tiveram fé, o líder religioso na força redentora da devoção e do ascetismo, o escritor no poder transformador da ciência e da filosofia''.

A história de Canudos se repetiria aqui, na divisa do Paraná com Santa Catarina, em outra guerra civil, que durou quatro anos (1912 a 1916). De novo, um líder religioso, de novo o Exército indo para cima, de novo um massacre. Na Guerra do Contestado, faltou um talento como o de Euclides para contar a história. Uma pena, porque temos ainda muito que aprender, tanto de uma como de outra, ambas lamentáveis.

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