Dona Elena vai ter um domingo triste neste Dia das Mães. Sua filha Luciana Gonçalves de Novaes, 19 anos, recebeu um tiro no rosto quando tomava lanche, no intervalo de aula dentro da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. O projétil que se alojou na medula óssea deixará sequelas inevitáveis.
Elena, com o marido José Novaes, parecem que também receberam o tiro. A sociedade também foi baleada. Deveria haver uma representação forte para pedir perdão a essa mãe sofrida, que hoje chora, peito asfixiado pela dor, como se nele batessem os corações de todas as mães do mundo. E pedir perdão por que? Porque perdemos o rumo das coisas, insistimos em não perceber como elas realmente são.
É o caso do traficante que apertou o gatilho. Ele acha que vender droga é normal, uma profissão mesmo. A clientela é tão grande que pensar desse jeito amoral pode mesmo fazer sentido empírico: diz o secretário da Segurança e ex-governador Garotinho que uma pesquisa mostra a existência de 7% de usuários de drogas entre os dez milhões de habitantes da região metropolitana do Rio. Isso quer dizer 700 mil pessoas. E ele pede para que os pais sejam tão rigorosos com os filhos como são quando cobram eficiência do Estado no combate ao tráfico. Podemos projetar essa situação para qualquer centro urbano brasileiro: quem acha que droga é mesmo normal precisa ver que o tráfico está pulverizando a segurança pública em dimensões nacionais. Os traficantes pensam assim: a Polícia não pode molestá-los em seus pontos de venda, nem prender ninguém e muito menos reagir aos tiros que recebem de forma letal. E disseram: se isso não parar, vamos atirar nos estudantes da Universidade, que aliás faz fundos com o morro do Turano. Assim as autoridades se encolhem. Essa lógica nada tem a ver com exclusão social. Só falta achar normal bandido atirar em estudante. Por outro lado, os estudantes precisam ver como é, na prática, esta corja que alimenta muitos deles. Disse o New York Times que enquanto o crime e a política colidem no Rio, ''a sociedade se encolhe de medo''. Ou de dor, como a mãe de Luciana. Mas não é só: para complicar, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, desembargador Miguel Pachá, disse uma coisa incrível: enquanto a criminalidade cresce, o número de processos está diminuindo. Porque existem menos esclarecimentos dos fatos, como consequência menos denúncias do Ministério Público e portanto decréscimo nas ações penais.
Gostaria, neste domingo, de enxugar um pouco das lágrimas de dona Elena e dispor de um bálsamo para aliviar-lhe a dor. Ela paga, neste dia que deveria ser de alegria mas está sendo de profunda tristeza, o preço da incompetência acumulada. Para Luciana, precisamos pedir perdão. Cruel e brutal o que lhe aconteceu. Espero, dona Elena, que suas lágrimas ajudem a limpar outros olhos, que não querem enxergar o que está à sua frente e preferem continuar construindo teorias no vácuo.

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