Comecemos por relembrar a definição do adjetivo: vem de raiz, pode ser considerado essencial, embora inflexível, e gera antagonismos. Portanto, ser radical tem seu lado bom. Mas, por falta de graxa na cintura, acaba provocando mais problemas do que soluções ao navegar pelo oceano das utopias.
Radical e cético, Nietzche escreveu que ''certas convicções são mais inimigas da verdade do que as mentiras''. Menos radical, Ghandi pensou alto: devemos ser nós mesmos. ''Deixai que vosso irmão seja ele mesmo; amai-o por causa disso e não apesar disso''.
No Brasil do momento político, ''radicais'' são aqueles políticos do PT que fustigam o próprio partido. Os ditos radicais dizem que são coerentes e por isso fazem cobranças ostensivas.
Bom pensar nesse assunto olhando para nós e a vida. Comecemos pela vida pessoal: se a posição for sempre intransigente, não há paz e nem união familiar que dure. Todos temos nossas esquisitices e se o homem e a mulher não tiverem compreensão e tolerância entre si não há relacionamento que aguente. No trabalho, temos que engolir sapos de vez em quando diante de chefes ou superiores incapazes ou que só sabem argumentar mostrando poder de cima para baixo. É assim em todo lugar. Alguns tentam estabelecer um limite imaginário das coisas: engolir sapos, sim, mas sapos inchados, não. O radical pode se tornar um grande chato.
Assim está o País onde o presidente Lula viajou magoado para o Peru diante de tanta abobrinha tupiniquim: o tenente-coronel eficiente da PM do Rio foi exonerado do comando de batalhão porque importunava o tráfico. Teve coragem de dizer isso publicamente, na passagem de comando, e foi mais fritado ainda porque falou de um secretário que pretendia determinar horários para polícia fazer incursões anti-tráfico. Este não teve o direito de ser radical.
Aqui no Paraná, enquanto juízes e promotores fazem curso de tiro e aprendem noções de defesa pessoal em Curitiba, a corrente ''antiterror penal'' se manifesta como se aterrorizados sejam os condenados, só eles, e não as vítimas reais ou em potencial. É hilário, porém radical. Em São Paulo, a bandidagem do crime organizado (PCC) faz teste com videoconferência: o chefão Marcola, preso em Presidente Bernardes (ele mandou matar o juiz Machado Dias), foi interrogado no próprio presídio pela juíza de uma Vara Criminal em São Paulo, enquanto senadores assistiam a tudo em Brasília, para ver se o modelo é bom e aprovam projeto de lei para implantá-lo em todo o País. A bandidagem que deita e rola indignou-se, seus advogados também. Acham que o juiz tem que olhar os réus de perto. Aliás, quem disse que só defensores entendem de leis? A tecnologia permite implantar a novidade. Os radicais são contra. Para os que têm consciência crítica, é mesmo difícil digerir a série de absurdos que somos obrigados a engolir todos os dias. Às vezes, temos que cultivar aquela preciosa virtude de Jó e seus descendentes. Ser radical ou não, eis a questão.

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