As testemunhas de atos criminosos, quando são violadas normas de conduta social, deveriam ser protegidas para, com segurança, terem condições de revelar o que presenciaram ou fornecer informações indispensáveis para decisões judiciais. Entretanto, sabemos como as testemunhas procuram se esconder no anonimato, sem saber que num processo quem testemunha precisa revelar o nome, mostrar a cara e fornecer endereço. É assim nos autos. E se não for assim, os atos processuais estão nulos.
O preço que se paga quando se falam em cumprir o dever, ética, solidariedade e cidadania têm sido altos. E caros. Temos um exemplo clássico do que significa ser ameaçado e perseguido através do caso do policial norte-americano Frank Sérpico. Intolerante com bandas podres, mostrou policiais indignos, corruptos, e a partir daí passou a ser odiado. Num dia de 1.972, inventaram uma chamada de urgência num prédio do Brooklin. Era uma emboscada: quando chegou, Sérpico foi recebido com um tiro no rosto. Os colegas dele esperaram um pouco, para o sangue correr bastante, mas mesmo assim o policial honesto sobreviveu até chegar uma ambulância. Sua alma, porém, ficou definitivamente amputada. Ele trocou os Estados Unidos pela Suíça e desapareceu do mapa. A história foi vivida no cinema pelo ator Al Pacino.
Entre nós, tivemos alguns Sérpicos na história da Polícia. Vou apresentar, agora, o último deles. Seu nome: Francisco Vicente Badenes Junior. Profissão: delegado de Polícia. Local de trabalho: Vitória, capital do Espírito Santo. Foi ele quem investigou, em profunda extensão, as atividades do crime organizado no Estado, dando nomes aos bois em casos de corrupção, extorsão, assassinatos sob encomenda, tráfico de drogas, improbidade administrativa, intimidações e atentados. Graças ao trabalho de Badenes, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico corroborou tudo isso e indiciou uma grande quadrilha. Ainda graças às revelações de um inquérito que o delegado presidiu, a Ordem dos Advogados, secção local, e logo em seguida o Conselho Federal da OAB, requisitou intervenção federal, episódio que resultou no pedido de demissão do indignado ministro da Justiça, Miguel Reale Junior. Isso porque o procurador-geral da República, Brindeiro Pilatos, preferiu fazer de conta que a coisa não seria bem assim. Para comemorar a impunidade, os bandoleiros explodiram uma bomba no prédio da OAB-SP, durante uma solenidade.
Badenes ficou sem nenhuma condição de permanecer no Espírito Santo. Ou seja: o homem que com a força de seu trabalho desmascarou a realidade criminosa submersa teve que mudar-se para Brasília. Resumo: cumpra o seu dever, prestigie a sociedade, seja corajoso e depois receba uma enorme banana de presente. Badenes está vivendo assim: escondido, amargurado, ignorado, tratado como alguém indesejável e que seja melhor evitar. É repugnante. É este o nosso Sérpico. Este é o nosso Brasil.

mockup