PERCIVAL DE SOUZA - MONTANHA MÁGICA
Lula disse, em Davos, que se sentia numa montanha mágica, onde sonhava com o povo tendo acesso à educação e ao acervo cultural da humanidade, saindo do analfabetismo e da mais absoluta alienação. ''Montanha mágica'' é o título de um romance famoso de Thomas Mann, onde o grande escritor diz que ''a idade sumamente avançada de nossa história provém do fato de ela se desenrolar antes de determinada peripécia e de certo limite que abriram um sulco profundo na nossa vida e na nossa consciência''.
Entenda como puder, souber ou quiser. Afinal, é do próprio Mann um aforismo intrigante: ''o positivo no cético é que ele julga tudo possível''. A montanha, mágica como sentença moral, encontra eco nas palavras da reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Wrana Maria Panizzi, definindo esse precioso espaço da educação como ''um lugar que pode ser dito fora do poder'', isto é, ''o lugar da produção da riqueza material e de uma riqueza cada vez mais escassa, a riqueza moral, dos valores, da convivência e do diálogo, da pluralidade ideológica e cultural, da crítica comprometida com a ética que busca ser verdadeira e justa''. Bem melhor ouvir isso, em Porto Alegre, do que assistir a cena degradante dos confeitos cheios de creme arremessados contra o rosto do presidente nacional do partido que está no governo, mostrando como são grotescos e amplos os terrenos da intolerância.
Desçamos ao pé da montanha. As palavras da montanha possuem forte significado porque, misturadas com outras, explicitam os desafios para equilibrar o tecido social. Como já dizia Tomás de Aquino, para a prática da virtude é preciso um mínimo de bem-estar. As palavras são proferidas por toda parte, os púlpitos andam roucos de tantos pregarem e roucos, como disse Vieira, porque se pregam palavras, e não a Palavra. De novo, entenda como souber, puder ou quiser. As palavras precisam ser verdadeiras. Como os diamantes, são ou não são.
Acontece que já se queixou, e muito, de que as palavras voam. A escrita seria melhor, porque fica. Juruna, o falecido cacique, gostava de gravar as palavras que ouvia, para ninguém se esquecer, no futuro, do que já havia dito. Os inimigos da escrita reclamam que o papel aceita tudo. Que não se divirja por isso, quando em torno de certas palavras não há o que se discutir e quando praticamente tudo já se disse sobre determinados assuntos, entre eles: a existência da miséria, da desigualdade, dos fatores geradores de criminalidade e violência, das consequências da impunidade, do temor da brutalidade, das drogas levando a lugar nenhum ao aniquilar a razão e tantos mais. Portanto, chega-se ao momento, que talvez seja o nosso, de converter as palavras em ação, sonhos em realidade, idéias em coerência, responsabilidade em cidadania e assim por diante. Foi numa montanha que Jesus proferiu um sermão, com nome dela, que ao falar dos bem-aventurados, os felizes, transformou-se num grande código de ética para a humanidade. A tentação nada sublime de transformar tudo isso em ranço e mesquinharias, ideológicas inclusive, nos remete ao detalhe periférico e nos afasta do essencial. Seria o caso de pedir e exigir empenho à palavra empenhada. Questão de honra. Que Thomas Mann, ou a montanha presidencial, nos ajudem a entender.





