PERCIVAL DE SOUZA - Desejo de matar
Não, não vou falar dos filmes de Charles Bronson, o vingador que saia para suas empreitadas à margem da lei e da ética para satisfazer desejos de vingança. Aconteceu que um casal apareceu morto dentro de casa, no bairro do Brooklin, em São Paulo, causando grande comoção. Ele, Manfred Albert Richthofen, era diretor de uma estatal, a Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S.A.), que administra estradas. Ela, Marísia, mesmo sobrenome, era médica psiquiatra. Dois filhos do casal encontraram os corpos.
Uma investigação bem conduzida pode produzir resultados surpreendentes. Este caso ficou com o Departamento de Homicídios, a melhor polícia judiciária dos paulistas. Que teve ainda o reforço de dois promotores.
A entrada dos assassinos na casa do casal Richthofen lembrou o famoso caso do crime da rua Cuba, em dezembro de 1.988. Por que o casal não foi morto na cama mas arrastado para ela. Ficou arrumado com lençol e ainda com asfixiantes sacos plásticos de lixo. Ficou claro que Manfred e Marísia foram assassinados com violentos golpes aplicados com algum tipo de instrumento contundente. A filha Suzane, 19 anos, estudante de Direito, estava na madrugada com o namorado Daniel num motel. Ela guardou um recibo do motel como comprovante. Nunca vi isso antes da minha vida: alguém pedir recibo de permanência em motel. Tecnicamente, isso seria uma mera circunstância, que poderia servir como álibi ou para despertar desconfianças. Prevaleceu a segunda hipótese. A moça ainda fez insinuações contra uma ex-empregada (a velha tese do mordomo nos romances policiais). Daniel comprou uma motocicleta no dia seguinte após o crime. Pagou com notas de dólares. Da casa do casal Richthofen haviam sumido dólares. Elementar, Watson. Na madrugada da última sexta-feira, Suzane e Daniel confessaram o assassinato, que teve a participação de mais um rapaz, amigo do namorado de Suzane.
Mas como? Por quê? Perguntas difíceis de responder. Os corpos das vítimas foram atingidos com ódio, demonstrado na fúria do manejo dos objetos utilizados para matar. Os crânios foram rachados. Quebraram um dos ossos do pescoço de Marísia. Esclarecido o caso, descobriram que as armas sinistras foram barras de ferro. A moça diz que os pais se opunham ao seu namoro com Daniel, que não é flor de se cheirar, daí a idéia de matá-los. Toda dela, com apoio do namorado, que arranjou um cúmplice. Matar e ir para o motel. É a barbárie humana. A psiquiatra não poderia imaginar o que se passava na cabeça da própria filha. Acostumada a decifrar enigmas, não desconfiou da cabeça que ela mesma gerou. A moça, estudando Direito, achava-se inteligente demais para deixar pistas. Os matadores usaram luvas cirúrgicas e tomaram outras precauções para não deixar vestígios. A moça tem um irmão de 15 anos, traumatizado pelo extermínio dos pais e em saber que a irmã é assassina. Sim, todos que de qualquer modo contribuem para o crime incidem nas mesmas penas a este cominadas. Está na lei. É a nossa sociedade.





