Percival de Souza - CAVALO DE TRÓIA
Ulisses fez de conta que bateu em retirada e deixou um enorme cavalo de madeira perto das portas de Tróia. Curiosos, os troianos puxaram o cavalo para dentro da cidade e dele saltaram guerreiros ocultos que destruíram e saquearam. Não existe vão entre o poema de Homero e a constatação, feita pelo presidente Lula, de que precisamos mergulhar em águas profundas e capturar não os pequenos peixes, mas os graúdos. Estamos falando do crime em mais alto grau.
Um colega de Vara Criminal do juiz Alexandre Martins de Castro Filho disse, durante reunião entre autoridades locais e federais, que diante do assassinato do magistrado temia que um cavalo de Tróia houvesse se instalado dentro do próprio Judiciário. A afirmativa é forte, ainda mais partindo de um juiz, mas Lula também disse que os braços do crime organizado estão por toda parte, nesta inclusive. A analogia é evidente: do moderno cavalo, que coloca seus cascos onde menos se espera, saem os bandidos, de colarinho ou não, armados de fuzis ou canetas de ouro, sugando e corrompendo, traficando e matando, dissimulando apreensão e temor. ''Somos humanos, sujeitos a intimidação'', admite o presidente do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello. ''Se isso continuar assim, não vai ser fácil administrar a Justiça'', comenta Francisco Fausto, presidente do Tribunal Superior do Trabalho. O momento é grave.
Não podemos permitir a entrada do cavalo de Tróia em nossas cidades. Isso aconteceu porque os troianos ficaram curiosos, sem desconfiar que o perigo estava no ventre do cavalo. Também hoje estamos nas mãos de curiosos, que dão palpites distantes da realidade. A ladainha perniciosa se arrasta há anos, pagamos como sociedade um alto preço por isso, e a bandidagem brota e salta desse ventre, também para destruir e saquear. O presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Miguel Pachá, recomenda que devemos pôr a cabeça no lugar e pensar com calma, como Péricles discursou aos atenienses durante a Guerra do Peloponeso: ''Nosso ofício é enterrar mortos. Mas não devemos sair direto do cemitério para o campo de batalha. Que as palavras e a discussão nos digam primeiro o que fazer''. Pois bem, desembargador: o traficante-facínora Fernandinho Beira-Mar foi para as Alagoas, depois de ficar um mês em São Paulo. Mas é um prisioneiro sob jurisdição da justiça do Rio, lugar onde ele cometeu seus crimes. Quem está determinando onde ele fica não é o Judiciário, o que seria óbvio, mas o Executivo. A concordância com essa anomalia quer dizer que o sistema atual não funciona e, diante de bandido perigoso, é preciso mudá-lo. Em outras palavras: não há como dar resposta eficiente em certos casos diante do formalismo e da burocracia dominantes. Assim, tem razão Pachá ao comentar, também, que ''o poder converteu-se numa micro-física, está em toda parte e lugar nenhum''. O novo cavalo de Tróia ameaça a tudo e a todos. A estratégia, agora não é de Ulisses, o relato não é de Homero e os personagens somos nós, conscientemente ou não.





