Existem rankings bons para o ego. Existem rankings atemorizantes. A segunda hipótese é toda nossa na semana em que a ONG Transparência Internacional apontou o Brasil como o 45º País do mundo nos índices de corrupção. Consolo: estamos menos mal do que Índia, Rússia, China e México. Vergonha: temos fronteira com o Paraguai, antepenúltimo colocado numa lista de 102 países, ligado ao Paraná por meio de uma ponte sintomaticamente batizada de ''amizade''.
O levantamento é feito todo ano pela entidade com sede em Berlim. No ano passado, ganhamos nota 3,9. No ano retrasado, 4. Ficamos no mesmo patamar, empatados com o Peru e a Jamaica. Como nosso País é reincidente específico, segundo a linguagem da República dos Bacharéis, é preciso retratar isso da maneira mais clara possível. Com palavras bem incisivas: continuam metendo a mão.
A bandidagem reflete a sociedade com perfeição. Repare que a nossa grande massa criminal é formada por autores de crimes contra o patrimônio. A turma da ladroagem que assusta, apavora e irrita. Nossa presença destacada no listão mundial dos corruptos quer dizer: muita gente não aponta a arma intimidativa mas empunha perigosamente a caneta, do mesmo modo que aciona teclados transferindo para a sua conta o patrimônio alheio. Curioso: no caput, a cabeça do artigo 144 da Constituição Federal, está escrito que segurança pública deve ser exercida para nessa sequência preservar a ordem pública e a incolumidade das pessoas e do patrimônio. Quer dizer: primeiro a ordem, positivista; depois, o resto. Diz ainda nossa Constituição, artigo 136, que pode ser decretado estado de defesa quando a tal ordem ou a paz social estiverem ameaças por grave e iminente instabilidade institucional. Portanto, pelos menos na primeira parte da previsão, estamos perfeitamente em ''ordem''. Augusto Comte ficaria arrepiado.
Traduzindo da forma mais didática possível: continuam achando no Brasil que aquilo que é nosso na verdade pertence a eles; que o interesse pessoal deve ficar acima, de qualquer jeito, dos interesses coletivos; que as almas podem ser leiloadas para Belzebu, sem problema ético algum. A propósito, esse nome, oriundo das Escrituras, quer dizer ''deus das moscas''. Não é por outro motivo que, conforme provérbio chinês, ''a verdade é o mais eficiente instrumento de mudança social; por isso os homens a temem''. Também se lava dinheiro, e como, sendo bom definir pedagogicamente o que vem a ser isso: legitimar o dinheiro sujo. O know-how original veio de Meyer Lansk, o contador de Al Capone. Para disfarçar a grana procedente de contrabando, assaltos e exploração do lenocínio, foi montada uma rede de máquinas de lavar roupa. Por isso se fala em embranquecer o dinheiro sujo, ou lavagem de dinheiro entre nós. É o ralo, com múltiplos disfarces, que engole criminosamente o que deveria ser investido em educação, saúde, moradia, segurança e outros benefícios para a população. Estão aí as pistas morais para sairmos desse ranking da humilhação nacional, antes da próxima avaliação.

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