A ética, como sabemos, é um preceito moral sobre o comportamento do ser humano, no pêndulo entre o que seria certo ou errado, ruim ou bom, bem e mal. Uma coisa poderia ser considerada antiética mas legal, na forma fria da lei. É uma questão de escrúpulos, de caráter, de dignidade, de cidadania. De coerência, também.
Nos últimos dias, o Rio de Janeiro viveu novamente o terror praticado pelos traficantes. A bandidagem, atirando granadas e incendiando ônibus, berrava ''Beira- Mar, Beira-Mar''. É o apelido do facínora que faz rodízio pelas prisões brasileiras, provocando medo por toda parte. Agora, o bandido tem um novo advogado, um desembargador aposentado que já presidiu o Tribunal de Justiça do Piauí. Os honorários iniciais estão orçados em nada módicos R$ 100 mil. De onde vem o dinheiro? Do tráfico, evidentemente. É normal o advogado receber dinheiro de qualquer tipo de cliente para desenvolver o seu trabalho? Sim. Feitas as perguntas inevitáveis, e dadas as respostas formais, resta saber se seria ético ser remunerado por alguém que para saldar seus compromissos faz uso de dinheiro de procedência suja. A questão é ética. Parece evidente que é preciso respeitar limites, não ultrapassar linhas divisórias. O sagrado direito de defesa não é o parâmetro para situações específicas. Tanto que uma advogada dentre os 17 bacharéis que ''prestam serviços'' (entenda como preferir) admitiu, com todas as letras, que é paga pelo ''dinheiro do narcotráfico''.
Meninos, eu vi: nos Estados Unidos, fazendo um curso organizado pela Voice of América, tomei contato com a legislação sobre esse assunto: lá, nenhum defensor pode ser pago com dinheiro de procedência criminosa. Ou seja: se alguém for preso por prática de crime, o dinheiro procedente de suas transgressões é confiscado e não pode ser usado para pagar advogado. Como a defesa é sagrada, se não tiver condições financeiras o acusado é defendido por um advogado patrocinado pelo Estado.
Vivemos uma situação em que se busca alguma saída para a criminalidade desenvolta e a violência perturbadora. Nessa procura, nos deparamos com os tentáculos do crime organizado, que se estendem por toda parte. Lugares que imaginávamos sacrossantos foram contaminados. Se, como sociedade, quisermos mesmo reagir, e não fazer teatrinho faz-de-conta, essa situação precisa ser revertida. Não estamos falando, aqui, dos bacharéis que não advogam e são apenas emissários, pombos-correio do tráfico. Estamos falando em vínculos umbilicais. Diz o presidente nacional da OAB, Rubens Approbato Machado, que a advocacia, ''ainda que não seja uma atividade mercantilista, não tem caráter filantrópico ou de gratuidade. O profissional, por seu trabalho, há de ser remunerado''. Veja que o assunto é incômodo e embaraçoso. Mas, no fundo, acho que todos nós sabemos muito bem do que estamos falando. De preferência, lembrando sempre o que quer dizer ética.

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