Muito forte este Hércules. Faz sentido: é fiel vassalo de Arcanjo.
Não estou falando sobre o filho de Júpiter e nem do primeiro nas cortes celestes, e sim do ex-cabo da Polícia Militar matogrossense, Hércules Agostinho de Araújo, e do chefe do crime organizado João Arcanjo Ribeiro, o ''Comendador''.
O arcanjo só de nome, que na esfera terrestre é legítimo representante das forças do mal, tem um currículo apreciável. Está preso em Montevidéu, até a burocracia diplomática conseguir recambiá-lo no mês que vem. Hércules, daí a sua força, é ligado umbilicalmente a ele. De uma arma apreendida com o conhecido ''cabo da morte'' Hércules, partiram os projéteis que mataram o jornalista Sávio Brandão, que denunciava em seu jornal, ''Folha do Estado'', a jogatina mafiosa comandada por Arcanjo, dono de um conglomerado de empresas que inclui um hotel de luxo na Flórida.
O homem é ele e suas circunstâncias, ensina Ortega y Gasset. Pelos frutos se conhece, diz a Bíblia. Hércules escapou de um presídio de segurança máxima (?) de maneira prosaica: atravessando os portões, vestido de guarda penitenciário. Fugas assim, quando muralhas não são escaladas, não se abrem túneis e helicópteros não aparecem, somente podem acontecer se antes delas acontecerem não estiver tudo previamente dominado. Ou, como queiram, comprado.
Não há que escolher palavras. É isto. A Justiça decretou a prisão temporária de vários servidores do presídio por causa da fuga de Hércules, que em vez de usar a força empregou a astúcia por meio da corrupção. Não escapou nem o diretor, experimentando nesse feriadão a sensação de estar entre os prisioneiros que costumava trancafiar. O governo do Estado, no melhor estilo de Tombstone, ofereceu um prêmio de R$ 100 mil em troca de uma informação suficientemente boa para permitir a prisão do fugitivo matador.
Mais um exemplo da hidra, do polvo ou de Tróia. É o crime organizado, executando, subornando, corrompendo, gargalhando. Para os que insistem em viver no mundo da lua quando se trata desse assunto, é bom lembrar que essa estrutura poderosa gira em torno dos crimes praticados em maior número ou seja, pela ordem, contra o patrimônio, a pessoa e tráfico. Entenda: roubos e furtos têm como destinatário principal o receptador que nunca aparece. E nos assassinatos, ou tentativas de matar, e ainda no comércio das drogas, existem chefões mandantes.
São crimes interligados. Não se trata exatamente de marionetes, mas os caciques do crime manobram os cordões com poder e perícia, fazendo exatamente o que querem onde menos se espera. Além do que existe como face oculta, temos a infiltração que permite fazer pagamentos em cash para assegurar a obtenção de favores. Os nomes dos personagens dessa história são emblemáticos: Hércules teve a força, ou desfrutou dela. Arcanjo tem poderes interestaduais capazes de atravessar fronteiras. É o crime organizado galopante e vencedor. É o retrato do Brasil.

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