Percival de Sousa
Neste domingo dedicado aos pais, a data embora comercializada evoca momentos de confraternização, partilha, encontros, reencontros, amor e afeto.
Maquiavel ensinou que, para predizer o que vai acontecer, é preciso entender o que já aconteceu. Sim, a profecia, que nunca foi adivinhação, pode ser a história do futuro. Assim, os profetas bem que poderiam ser chamados de cientistas políticos. Infelizmente, a ignorância, limitações e distorções têm afastado a teologia do rumo da filosofia esta entendida, na origem da palavra, como busca amorosa da sabedoria. No dia dos pais, refletir sobre isso pode parecer penoso mas a data vai nos ajudar, leitor (a), a pensar juntos.
Sobre segurança, paz social no mais amplo sentido, nossa sociedade continua por equívoco a sonhar com um pai da Pátria. Esta figura, idealizada no âmbito municipal, estadual e federal, seria o miraculoso dirigente que, dotado de fantástico espírito público e personalidade formada com muito caráter, dignidade e honestidade, permitiria que a casa da administração fosse arrumada, permitindo por consequência melhores condições de vida ao sofrido povo. O pai da Pátria é uma ficção.
Não existe esse pai mágico: ninguém é uma ilha. Não se administra sozinho. É preciso ter plano, projeto, contar com adesões e equipe para viabilizar tudo aquilo que se pretende realizar. Mesmo entre os extremamente centralizadores, existe o alicerce que nem sempre aparece para dar sustentação aos teorizados ideiais. O pai da Pátria não existe como solução personalista. O dirigente pode, sim, apontar rumos e direções, definir uma filosofia. Isolado, porém, nada conseguirá. Desse modo, a sociedade que desejar padrões de paz e segurança precisará de muita gente vestindo a camisa em torno de algo bem planejado e cuja execução seja viável.
Ao mesmo tempo, quando uma coisa produz resultados errados e é preciso identificar o causador de problemas, enganos ou planos mirabolantes, costuma-se perguntar: quem é o pai da criança?
No contraponto, há reconhecimento em identificar-se alguém como pai da matéria quando se descobre um belo projeto, uma criação elogiável, uma unânime apreciação diante de algo que produziu frutos para o bem comum. A rigor, podemos notar que hoje muitos se apresentam como pais da Pátria, muitos se escondem na hora de descobrir-se quem é o pai da criança e são menores as oportunidades de prestar honra aos pais da matéria.
Admitamos que tudo isso pode constituir-se numa metáfora. Veremos, então, que: o que pretende ser pai da Pátria promete e promete. O pai da criança vive sempre fugindo. O pai da matéria é pouco reconhecido. Que bom seria se pudéssemos sempre oferecer tributos a pais como o da penicilina (Fleming), das nove sinfonias (Beethoven), da teoria da relatividade (Einstein), psicanálise (Freud), imprensa (Gutenberg), aviação (Santos Dumont), soro antiofídico (Vital Brazil), vacina contra raiva (Pasteur) e tantos outros pais que transmitiram idéias maravilhosas para a construção de um mundo melhor.
O pai também pode assumir o papel de provedor, hoje tão dividido com as mães. Por isso mesmo existem pais que são verdadeiras mães e mães companheiras que são pais autênticos, no sentido de prever e prover.
A força do presente político está na organização, na união, na comunhão, no coletivo sobrepujando o individual, na importância da solidariedade tornando anacrônica a postura solitária.
Saiamos da metáfora e assumamos o concreto. A sociedade, formada por pessoas e instituições que a particularizam, precisa de pais da matéria em várias áreas. De gente que pense no coletivo e não nos privilégios setorizados. De estadistas que mostrem a luz em tempos de trevas.
Há um detalhe, porém. Existem os filhos da Pátria. Se verás que um filho teu não foge à luta, como cantamos, a construção de uma sociedade mais igualitária, justa e fraterna, passa por caminhos que temos de pavimentar juntos. Feliz Dia dos Autênticos Pais.





