Que bom seria se o mesmo interesse despertado pelo depoimento do ex-secretário-geral da Presidência da República Eduardo Jorge, no Senado Federal, fosse o mesmo em relação a outras questões cruciais do País. Talvez, entretanto, tenha sido encontrada a fórmula para pautar os assuntos que nos preocupam: politizar tudo e ficar na mira dos holofotes. Aí, sim, tudo se discute, tudo se debate, tudo se estuda. Luzes, câmeras, ação!
Quem não tiver capacidade de politizar e ficar sob a luz forte dos holofotes, pode desistir. Continue a cumprir seu papel de cobaia cansada, sobre a qual se erguem e continuarão sendo erguidas todas as teorias e desculpas, tantas delas esfarrapadas. Enquanto Eduardo Jorge era sabatinado, FHC recebia uma visita do governador Garotinho, do Rio, empenhado em obter uma ajuda para implementar o seu já desencantado plano de segurança pública. Luzes, câmeras, apoio financeiro!
Vivemos, portanto, em clima de faz-de-conta. O holofote nosso de cada dia é a obra superfaturada do Tribunal Regional de Trabalho em São Paulo. Na ribalta, agora, o maior espetáculo seria a prisão do juiz Nicolau dos Santos Neto, também conhecido como Lalau. Raciocínio de holofote: quem tem a missão de capturar o juiz é a Polícia Federal. Se ela não faz isso, é incompetente e omissa. Nada melhor, portanto, do que convocar o diretor da Polícia da União para depor no Senado e explicar por que o juiz não é encarcerado. Luzes, câmeras, cadeia!
Bobagem pura. Só propalada por quem não é do ramo. Em primeiro lugar, porque no país dos infratores os foragidos são contados aos milhares. Segundo, no país-continental se uma pessoa quiser esconder-se mesmo ninguém conseguirá achá-lo. Terceiro, Lalau tem recursos para atravessar as fronteiras e os oceanos. Quarto, prisão de foragido não tem data e hora certa para serem cumpridas. Quinto, capturar, no caso, não é tomar novos depoimentos, mas sim investigar, no verdadeiro sentido da palavra. Investigar não é só mandar intimação. Investigar não é só cobrar informações. Investigar é sair em busca de pistas, espreitar, observar, fazer ligações, seguir.
Esta atividade – a investigação – nada tem de burocrática, nada tem de cartorária. Hercule Poirot estaria despedido no Brasil. Agatha Christie teria que se explicar numa CPI especial. Grandes detetives não se deixam prender em teias de aranha.
A Polícia que está aí é fruto das costuras da última Carta Magna, que está completando doze anos. A autoridade policial foi esvaziada, por razões que não cabe neste momento analisar. Não pode expedir mandado de busca e tudo que fizer ou pretender fazer precisa estar escrito no papel, assinado e carimbado. Assim, quando recebe uma determinação, a autoridade é literalmente a última a saber. Dos cartórios, vazam – não tão misteriosamente – todos os tipos de informação. Só que, de vez em quando, se cobra maior eficiência e rapidez. Vez ou outra se constata que esse esquema meramente burocrático não funciona. Está emperrado, ultrapassado, obsoleto.
Veja um exemplo paulista para ilustrar o descompasso: tem muita gente para multar os veículos, mas falta efetivo para conter os bandidos. Moral da história: multas implacáveis e tolerância com o crime.
A população tem sido cobaia repetida vezes. As cobaias estão cansadas de serem vítimas. As cobaias estão cheias dos incompetentes no sistema de persecução penal. As cobaias estão fartas de tantas mentiras e poucas verdades. Luzes, câmeras, decepção!
Agora é a vez de Pelé colocar o dedo nos vazamentos provocados pela Petrobras na Baía de Guanabara e no Rio Iguaçu. O atleta do século foi contratado para melhorar a imagem. Está na hora de se contratar um outro Pelé, não para a política de marketing, mas simplesmente para mostrar a vários escalões do Governo aquilo que eles não querem enxergar: os criminosos estão acreditando que possuem direitos para invadir a propriedade dos outros, tocar nos seus corpos, liquidar suas vidas do modo que lhes parecer mais prático, pouco ligando para as perdas, a dor e o sofrimento das verdadeiras vítimas. Essa sintetizada filosofia do crime contemporâneo não é minha – é do professor José Pastore, da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo. Para que se compreenda isso no Brasil, precisamos politizar, precisamos instalar holofotes. Ou, quem sabe, contratar Pelé.

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