Rio, 05 (AE) - O pesquisador Joel Bicalho Tostes, viúvo de uma neta do escritor Euclides da Cunha, ingressou hoje com uma representação na Procuradoria da República do Rio contra o Arquivo Nacional, para que a instituição seja intimada a apresentar o processo criminal da morte de Euclides da Cunha Filho, assassinado, como o pai, pelo amante da mãe, Dilermando de Assis. Há 20 anos o pesquisador vem procurando os documentos, que viu pela última vez no final dos anos 60, na antiga sede do Arquivo Nacional.
Em meados dos anos 70, quando decidiu pesquisar o assunto mais uma vez, Tostes não conseguiu encontrar o processo e, desde então, vem tentando mobilizar as sucessivas diretorias do arquivo. Em setembro do ano passado, o pesquisador fez nova solicitação dos documentos e, como resposta, recebeu uma carta da coordenadora de documentos escritos do Arquivo Nacional, Silvia de Moura Estêvão, dizendo que, apesar das buscas, não havia explicação para o desaparecimento do processo.
O diretor do arquivo, Jaime Antunes, explicou que a instituição está vasculhando os registros dos anos 70 e até das 21 varas criminais do Rio, para verificar se houve extravio ou arquivamento errado do processo - mas, se nada for achado, a equipe será obrigada a abrir caixa por caixa dos cerca de 50 quilômetros de estantes repletas de papelada. "Eu tenho 74 anos e como esperar mais 20 até o trabalho ser concluído?", argumentou Tostes. Complô - Euclides da Cunha Filho foi assassinado em 1916, sete anos depois do pai, a quem tentou vingar. Quando leu o processo, Tostes ficou impressionado com três cartas, assinadas pelo irmão de Cunha Filho, Solon, nas quais ele menciona a morte do pai. O pesquisador acredita que essas cartas poderiam reforçar a tese defendida pela família do escritor: o autor de "Os Sertões" teria sido atraído à morte pela mulher e por Assis.
"Solon apoiava a mãe e foi quem tirou de casa a arma do pai, para que não levasse o revólver no encontro com Dilermando", contou Tostes. "Eu acho, pelo que me lembro das cartas dele, que, nas entrelinhas, ele reforça a idéia do complô e tenho certeza de que as últimas palavras de Euclides - perdôo-te - não foram dirigidas a Dilermando, mas ao filho que o traiu". Daí a importância pessoal que o pesquisador atribui aos documentos desaparecidos.
Tostes pretende também entrar com uma ação na Justiça contra o arquivo, pedindo que a Justiça estabeleça um prazo para a instituição encontrar o processo. Se não for localizado, a família quer receber uma indenização. "Para mim, está claro que, em algum tempo, esse processo foi retirado oficiosamente do arquivo, sem registro, e nunca devolvido", afirmou ele. "A versão que temos para a tragédia de Euclides da Cunha, que divulguei num livro e quero colocar na Internet, está prejudicada pela falta dessa documentação".

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