Pequim sacraliza o setor privado
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de março de 1999
Por Pepe Escobar, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
Hong Kong, 15 (AE) - Chineses adoram emendar sua Constituição. A da China comunista - criada em 54 - costuma ser emendada a cada cinco anos. Em Taiwan, são mesmo compulsivos: emendam todo ano. No que concerne à República Popular, hoje (15) foi um dia histórico - no encerramento da sessão anual do Congresso Nacional do Povo, de complementar´´, o setor privado passou a status de parte importante da economia socialista de mercado´´ (sic). É no mínimo o reconhecimento oficial de uma situação de fato: apenas o setor privado poderá gerar empregos suficientes para manter a China crescendo a seus no mínimo imprescindíveis 7% ao ano.
O pensamento do Pequeno Timoneiro Deng Xiaoping também está a ponto de se situar no mesmo nível de Marx, Lenin e Mao: ou seja, irreversível, e convertido em dogma do Estado chinês. O desejo - quase uma ordem - parte do presidente Jiang Zemin. Fontes de Hong Kong revelam ampla controvérsia dentro do PC em relação ao tema: a esquerda ortodoxa e os intelectuais liberais são contra. Para a esquerda, Deng era ocidentalizado demais. Já os intelectuais são contra o culto de personalidade.
O engenheiro Jiang, ex-prefeito de Xangai, deve sua fulminante ascensão pós-Tiananmen a Deng. Sua idéia de sacralizar Deng na Constituição não só lamina sua própria imagem como abre caminho para uma futura sacralização do pensamento do próprio Jiang. Jiang está em plena campanha de marketing pró-Deng, polindo seu pensamento e o vendendo´´ ao PC como as Tábuas da Lei no que concerne reforma e desenvolvimento sem perturbação da estabilidade social.
Esta batalha ainda não está definida - tendo em vista as resistências de veteranos do maoísmo. Um famoso teórico da esquerda ortodoxa, o octogenário Deng Liqun, reitera que o setor privado hoje já representa um terço da economia chinesa: Se continuar neste ritmo, a proporção entre público e privado vai continuar a se inverter´´.
As novas emendas aprovadas hoje na Constituição chinesa também frisam a necessidade de dirigir o país apoiando-se sobre a lei´´, e pregam a edificação de um Estado de Direito - algo que nem mesmo o Pequeno Timoneiro visualizou. Quanto aos nostálgicos da Revolução, podem suspirar: o termo contra-revolucionário´´ a partir de agora está eliminado da Constituição.
O primeiro-ministro Zhu Rongji - em uma coletiva de imprensa também acompanhada com enorme interesse em Hong Kong - fechou a reunião anual dando um verdadeiro show. Relaxado, espirituoso, auto-irônico, Zhu citou Rousseau e Shakespeare e até corrigiu o tradutor de suas respostas para o inglês.
Durante o Congresso, Zhu já havia alertado os quase 3 mil delegados: cuidado com a corrupção, que a partir de agora vai dar cadeia. E já havia prometido mais ajuda às dezenas de milhões de desempregados vítimas da reforma das estatais, e às centenas de milhões de camponeses sobrecarregados de impostos. Enquanto isso, o presidente Jiang - à parte promover Deng - incitava extrema atenção com controle populacional e poluição: nove entre as 10 cidades mais poluídas do planeta são chinesas.
Zhu mais uma vez rejeitou enfaticamente as alegações de roubo de tecnologia nuclear americana como uma falácia´´: Não precisamos de espiões para construir o programa nuclear chinês´´. Para Zhu, a China atualmente é refém da política interna americana.
Previsivelmente, e reiterando os comunicados quase diários do Ministério das Relações Exteriores, Zhu considera o teatro de defesa de mísseis proposto pelos EUA para proteger Japão, Coréia do Sul e Taiwan uma violação do acordo internacional de proliferação de mísseis´´ e uma interferência nos assuntos internos da China´´.
Mesmo apresentando sua face ensolarada´´, Zhu fez questão de marcar a notória posição chinesa em relação a direitos humanos.
Acima de tudo conclamou os EUA a não apoiar dissidentes: Se eles voltassem para a China e continuassem sua desestabilização, não haveria democracia e império da lei no país´´.
O Sr. Zhu vai mesmo a Washington em abril. Espera enfrentar uma atmosfera hostil´´. Mas quer recolocar a mais importante relação bilateral do planeta - entre a única superpotência do presente e a superpotência do futuro - em seu devido lugar. Quer contar a verdade sobre a China´´. E está confiante que a China entra na OMC até o final de 99. Se a relação bilateral não se mantiver balística.


