Arquivo FolhaIncitadorO líder do MST, João Pedro Stédile, conversa com o ministro da Política Fundiária, Raul Jungmann. Stédile pode ser interpelado judicialmente por conclamar sem-terra e desempregados a novas invasões RIO - O governo lançará em agosto uma linha de crédito para facilitar a compra de terras, por pequenos agricultores, em cinco estados - Maranhão, Ceará, Pernambuco, Bahia e no norte de Minas Gerais. O anúncio foi feito ontem pelo assessor técnico do Ministério de Política Fundiária Marcos Corrêia Lins, durante o 9º Fórum Nacional, no Banco Mundial (BIRD). A inciativa, segundo Lins, deverá beneficiar 25 mil famílias de sem-terra nos próximos três anos. Lins participou de um debate sobre reforma agrária, no qual estava presente o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile.
Lins explicou que, para o projeto, haverá uma linha de crédito de R$ 75 milhões, com prazo de pagamento de dez anos, e carência de outros dois, com a aplicação da Taxa de Juros a Longo Prazo (TJLP). ‘‘A idéia é de que grupos de trabalhadores se reunam para comprar as fazendas dos proprietários’’, afirmou. Lins defendeu o projeto de assentamentos do governo e ressaltou que ‘‘a desapropriação de 3,5 milhões de hectares de terras agricultáveis, feita no governo Fernando Henrique, seria considerada significativa em qualquer país do mundo’’. Ele afirmou ainda que o governo pretende fazer um pacto pela reforma agrária, que envolverá estados e municípios no projeto de assentamentos.
Já o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Leites Dias Silva, outro integrante do governo presente ao Fórum, reconheceu que, desde 1995, ‘‘400 mil pequenas propriedades fecharam no Brasil, em decorrência da transição provocada pelas novas transformações tecnológicas’’. O líder do MST, João Pedro Stédile, elogiou o pronunciamento de Silva. ‘‘Pela primeira vez, o governo está sendo honesto’’, afirmou.
Stédile disse ainda que o MST não participará da comissão convocada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso para tratar do assunto. ‘‘Há uma tradição histórica do Brasil, segundo a qual sempre que um governo não quer resolver algum problema, cria uma comissão’’. Segundo o líder do MST, ‘‘o movimento não quer discutir o sexo dos anjos’’.
O líder do MST afirmou ter encaminhado ao governo proposta para a criação de uma linha de crédito no BNDES para que os agricultores assentados possam trabalhar junto com agroindústrias. ‘‘Um exemplo é a indústria de laticínios, que poderia se multiplicar, já que hoje é dominada por três multinacionais, a Nestlé, a Parmalat e o Leite Glória’’. Ele acusou ainda o governo de esconder crimes contra os sem-terra. ‘‘Em Eldorado de Carajás, no Pará, houve corrupção e pressão para que não se incriminasse o principal responsável pelas mortes dos sem-terra, o governador Almir Gabriel (PSDB)’’.
Stédile condenou o subsídio dado pelo governo às importações. Segundo ele, o Brasil importou, ano passado, US$ 6 bilhões em alimentos. ‘‘É um acinte ao agricultor brasileiro que o País importe batata frita da França e legume enlatado no Canadᒒ, afirmou. Stédile informou que os ganhos dos agricultores foi de 20%, contra perdas de 52% com pagamento de juros e aquisição de sementes e insumo. ‘‘O governo está alardeando que investirá U$ 5 bilhões em agricultura, quando, na época do Delfim (Netto), esse investimento chegava a U$ 15 bilhões’’.
Pressão - João Pedro Stédile, conclamou ontem os sem-teto de todas as cidades a ocuparem os terrenos baldios para pressionar o governo a resolver o problema habitacional. Stédile recomendou ainda aos desempregados urbanos, com fome, que ‘‘ocupem os supermercados, para garantir um direito que está na Bíblia, a de que todo homem poder comer’’. A entrevista foi concedida pouco depois de Stédile participar de um debate sobre reforma agrária no 9º Fórum Nacional. Segundo Stédile, ‘‘não existe vínculo orgânico entre o MST e os sem-teto, mas estamos fazendo uma pregação doutrinária junto a todos os pobres, para que se organizem e garantam seus direitos básicos’’.
O presidente Fernando Henrique Cardoso espera que a Procuradoria Geral da União tome providências em relação às declarações do coordenador do MST, João Pedro Stedile. ‘‘Estas declarações são suficientes para que a Procuradoria tome iniciativa para prevenir que estas idéias se transformem em fatos’’. ‘‘É preciso chamar à responsabilidade não apenas os que praticam estas ações, mas também aqueles que são seus autores intelectuais’’, reproduziu o porta-voz.

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