Pequeno agricultor paga mais juros, e Contag articula protesto
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terça-feira, 20 de julho de 1999
Por Liliana Pinheiro 
São Paulo, 21 (AE) - A agricultura familiar, que responde por 70% de todo alimento que chega à mesa do brasileiro e emprega 80% da mão de obra no campo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), está pagando mais juros pelo dinheiro tomado dos programas de governo para custeio de safra do que a agricultura de grandes produtores. A denúncia foi feita hoje pelo presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Manoel de Serra.
Pelo programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o pequeno produtor toma recursos com encargos de 20,4% ao ano (6% de juros, mais TJLP). Como pode abater 50% disso no pagamento da dívida, o valor cai para 10,2%, segundo a Contag. "As grandes empresas do setor, com o Plano de Safra, conseguem dinheiro a 8,75% ao ano", afirmou.
Dos R$ 13,1 bilhões reservados pelo governo para a agricultura, apenas R$ 3,4 bilhões vão para o pequeno produtor, de acordo com o presidente da Contag. Ocorre que, segundo o próprio IBGE, a agricultura responde hoje por 10% do PIB brasileiro, e 47% disso vem da agricultura familiar.
Serra lidera amanhã (22) protesto e passeata com 2 mil pequenos agricultores e empregados rurais, no centro de São Paulo, contra as políticas agrária e agrícola no Brasil.
Segundo disse, a política atual privilegia os grandes produtores, e desse modo, está contribuindo para maior desequilíbrio da balança comercial - as exportações não estão decolando como deveriam e o abastecimento interno está prejudicado a ponto de o País ser obrigado a importar alimentos básicos como arroz, feijão, milho e carne.
Ele pretende ainda marcar audiência com o presidente Fernando Henrique Cardoso para entregar um diagnóstico a respeito dos maus resultados da agricultura do ponto de vista macroeconômico. "Estamos completando cinco anos de déficit no setor agropecuário na balança comercial", afirmou. "É tempo de o governo perceber que a política de exportação que privilegia as grandes empresas do setor está errada."
Serra quer ainda entregar ao presidente um projeto alternativo de desenvolvimento rural sustentável, formulado pela Contag, que concilia a reforma agrária com a necessidade de competitividade e produtividade no campo, de modo a evitar importações de alimento e a ganhar mercados no exterior.
Além disso, o projeto aponta para a criação de 4 milhões de empregos no campo, em tempo a ser negociado. O sindicalista lembrou que o investimento para a criação de empregos na agricultura é bem menor do que nos demais setores.
A Contag costuma realizar seus protestos e apresentar suas propostas em Brasília. Desta vez, escolheu São Paulo, que é a capital do desemprego no Brasil, na esperança de sensibilizar mais a opinião pública, os sindicatos de trabalhadores urbanos e os políticos de modo geral.


