Pequenas nozes verdes matam o meio-ambiente e o povo em Taiwan2/Mar, 11:17 Por William Foreman Taipé, Taiwan (AE-AP) - Lu Toh retira o curativo da parte interna de sua coxa e mostra cicatriz negra do tamanho de um cartão de banco. Os médicos cortaram um pedaço de pele do local para reparar os danos causados por um câncer que estava abrindo um buraco em sua face. O engenheiro, de 49 anos, sabe que o câncer bucal não o atacou por acaso. Como outros habitantes de Taiwan, ele "chamou" a doença para si ao mastigar pequenas nozes de bétel vendidas em barracas nas beiras das estradas por toda esta ilha. "Eu desejaria nunca ter começado a mastigá-las", diz Lu, balançando vagarosamente sua cabeça. "Eu realmente me arrependo disso". Embora muitos considerem o bétel como um símbolo nacional e um inócuo estimulante natural, as nozes do tamanho de azeitonas são o alvo de uma nova campanha que alega que elas estão matando os taiwaneses e danificando o meio-ambiente. Mas os esforços para desencorajar o tradicional hábito de mastigar bétel encontra forte resistências em Taiwan, onde o governo diz que as nozes são a segunda maior fonte de renda agrícola e uma em cada nove pessoas apreciam mastigá-las. As nozes de bétel, conhecidas com "o chiclete taiwanês", são geralmente salpicadas com condimentos e outros aromatizantes servidas num cone de papel ou embrulhadas numa folha, e então vendidas nas barracas de beira de estradas por toda a ilha. Seu gosto é como a mistura do licopódio negro com creme dental barato. Mulheres usando minissaias e sutiãs de biquínis são geralmente utilizadas nas barracas para atrair clientes, em sua maioria, motoristas de táxis e outros operários que mastigam as nozes como tabaco ou a inalam, afirmando que produzem um leve torpor. Os mastigadores habituais podem ser identificados por seus dentes e lábios avermelhados pelo suco da noz, que algumas pessoas cospem nas calçadas e no chão, deixando manchas que são difíceis de remover. Quando Lu começou a mascar bétel, 20 anos atrás, não tinha a menor idéia de que pudesse causar câncer. A crença popular era a de que as nozes estimulariam as gengivas. O cirurgião que fez a operação oral de Lu, doutor Hahn Liang-juinn, fez da missão de sua vida fazer com que os taiwaneses parem de mascar as nozes de bétel. O departamento no qual ele trabalha no hospital de Taipé está cheio de homens cujas bocas estão inchadas devido às cirurgias, com sondas em suas narinas. Hahn cruza a ilha, fazendo palestras em prefeituras, escolas, hospitais e qualquer outro lugar onde as pessoas estejam dispostas a ouvi-lo. "Pense em Taiwan como sendo um organismo e as árvores de bétel são as células cancerosas", diz. Na medida que o bétel cresceu em popularidade na última década, o número de mortes em razão do câncer bucal mais do que dobrou. Houve 549 mortes em 1991, mas em 1997, as últimas estatísticas disponíveis, 1.163 pessoas morreram em decorrência do doença, de acordo com dados do governo. Quase 90% dos taiwaneses com câncer bucal mascam nozes de bétel e a maioria também fuma, aumento os riscos do aparecimento da doença, diz Hahn. Embora tais tipos de câncer comecem pela língua, a maioria dos pacientes apresentam a doença no lado interno da bochecha, onde as nozes são mascadas. As nozes trazem uma combinação mortal de sucos causadores de câncer e cerdas que saem da noz na medida em que é mastigada e irritam as gengivas e as paredes da boca. A irritação acelera o crescimento do câncer, que são verrugas brancas, parecidas com um couve flor. O governo da cidade de Taipé considera a possibilidade de tornar ilegal o ato de mascar bétel em espaços públicos, mas, fora isso, não há nenhuma regulação nacional sobre a noz. Com um grande sorriso, mostrando seus dentes avermelhados pela fruta, o vendedor de bétel Huang Kuan-Hsi considera exageradas as advertências sobre os problemas que podem ser causados pelo produto de vende. Huang, que diz ser proprietário de 20 barracas espalhadas por toda a ilha, diz que as nozes são inofensivas de mascadas com moderação. "Até mesmo macarrão instantâneo pode matar caso você coma demais. Ele contém conservantes", diz Huang, enquanto uma mulher de 20 anos, com um vestido curto e justo descasca uma pilha de nozes ao seu lado, numa de suas barracas no subúrbio do Taipé. Uma picape estaciona e a mulher desce do banco alto onde estava sentada, projetado para que os que passam pela rua possam ter uma boa visão de suas pernas. Ela vende ao motorista uma caixa com cinco nozes por 50 dólares taiwaneses (US$ 1,65). "Nós mascamos bétel pela mesma razão que os jogadores norte-americanos de beisebol mascam chiclete e tabaco", diz Huang. "Enquanto sua boca estiver se movendo, você continua bem acordado". Huang diz que proscrever as nozes de bétel iria criar um caos econômico, mandando dezenas de milhares de pessoas para fora do mercado de trabalho. Um típico fazendeiro de bétel pode ganhar até quatro vezes os rendimentos de um agricultor que dedique-se ao cultivo de arroz. O valor total da safra de 1997 foi de US$ 13,2 milhões, afirma o governo. Numa fazenda ao lado da montanha, cerca de uma hora de Taipé, o fazendeiro Su Ho-jin diz que não pôde resistir ao lucro potencial oferecido pelo cultivo do bétel. Dez anos atrás, Su cortou sua floresta de árvores de acácia e plantou quatro hectares de árvores de bétel em bem-cuidadas fileiras. Galinhas orgânicas, que ele também cria, cacarejam e ciscam na sujeira ao redor das árvores. "A grande coisa sobre as árvores é que elas começam a dar frutos cerca de sete anos depois de serem plantadas e se mantém produtivas por 50 anos", diz Su. Ele diz que quando plantou as árvores não tinha a menor idéia de que as nozes eram um perigo à saúde pública e que provavelmente não teria iniciado a produção se soubesse. Mas agora, está fixado numa pequena plantação e não tem escolha, a não ser continuar sua colheita. Para Chen Hsin-hsiung, professor especializado em da Universidade Nacional de Taiwan, a coisa mais assustadora sobre as nozes de bétel é o que elas estão fazendo no meio-ambiente. Ele afirma que milhares de hectares de novas plantações surgiram nos últimos 20 anos, muitas nas encostas da montanhas, o que está causando erosão e problemas com as águas subterrâneas. As árvores não têm folhagem suficiente para capturar quantidades adequadas de água da chuva e suas raízes superficiais não protegem o solo da erosão, diz. Quando um terremoto atingiu Taiwan em setembro do ano passado muitas das plantações de bétel foram arrastadas para baixo das montanhas porque as árvores não puderam segurar-se no solo durante os abalos, diz Chen, mostrando fotografias de árvores caídas empilhadas na base das montanhas. Chen reconhece que Taiwan tem uma dura escolha a fazer: proteger a economia ou o meio-ambiente? "Eu acho que nós devemos escolher o meio-ambiente", diz ele. "Se você o destruir, é muito mais difícil de recuperar".